Terapia para relacionamentos: o que vem depois do “ame-se a si mesmo”?
Amar a si mesmo é importante. Mas o que acontece quando isso não basta? Quando aprendemos a estar conosco, construímos autonomia, conhecemos melhor nossos limites e, ainda assim, continuamos desejando alguém com quem dividir a vida?
Há uma ideia repetida com frequência quando alguém sofre por amor: “você precisa aprender a ficar sozinho”, “ninguém vai preencher aquilo que falta em você”, “antes de amar alguém, precisa se amar”.
Existe muita verdade nisso. Uma relação dificilmente consegue sustentar sozinha tudo aquilo que esperamos da vida. Mas há também um risco de transformar o desejo por vínculo em sinal de dependência, fragilidade ou falta de amor próprio.
Talvez o problema não esteja em desejar alguém. Somos seres relacionais. Intimidade, pertencimento, reconhecimento, sexualidade, companhia e reciprocidade também fazem parte da experiência humana.
Amor próprio não substitui vínculo
Autoestima pode ajudar alguém a reconhecer seus limites, fazer escolhas melhores e não permanecer em determinadas relações apenas pelo medo de ficar sozinho.
Mas amor próprio não conversa conosco no final de um dia difícil. Não oferece reciprocidade, não constrói intimidade e não divide uma história.
Isso não significa que uma relação seja necessária para que uma vida tenha sentido. Há pessoas que não desejam viver em casal e encontram outras formas profundamente satisfatórias de construir vínculos.
A questão aparece quando existe um desejo de se relacionar e, ao mesmo tempo, algo parece tornar esse encontro repetidamente difícil.
Nesse caso, responder apenas “aprenda a se amar” pode simplificar demais uma experiência muito mais complexa.
Estar sozinho não é o mesmo que sentir solidão
Há uma diferença importante entre solitude e solidão.
Estar sozinho pode ser uma escolha agradável. Algumas pessoas valorizam momentos de silêncio, autonomia, recolhimento e liberdade e encontram prazer nisso.
Outra coisa é desejar proximidade e não conseguir construí-la.
É possível morar sozinho e sentir-se profundamente acompanhado pela própria rede de vínculos. Também é possível viver uma relação, ter amigos, trabalhar cercado de pessoas e experimentar uma solidão intensa.
Quando a solidão passa a produzir sofrimento, desesperança ou a sensação de que alguma coisa parece sempre impedir a aproximação, talvez valha investigar o que acontece nesses encontros.
Quando os relacionamentos começam a se repetir
Às vezes não é a ausência de relações que provoca sofrimento, mas a sensação de que as histórias mudam e determinados enredos permanecem.
A pessoa se interessa repetidamente por parceiros emocionalmente indisponíveis. Quando alguém se aproxima, perde o interesse. Tolera situações que a machucam por medo de abandono. Interpreta pequenos afastamentos como sinais de rejeição. Precisa constantemente de garantias de que continuará sendo amada. Em outros casos, o desejo por proximidade convive com um intenso medo de perder autonomia.
Essas contradições nem sempre são conscientes.
Uma das possibilidades da terapia para relacionamentos é justamente compreender o que se repete nos vínculos, que lugar determinadas escolhas ocupam na história de cada pessoa e por que algumas formas de relação podem parecer tão familiares, mesmo quando produzem sofrimento.
A terapia não deveria ensinar alguém a não precisar de ninguém
Às vezes a psicoterapia é apresentada quase como um treinamento para a autossuficiência.Aprender a não criar expectativas. Não depender emocionalmente. Não sofrer. Não precisar.
Mas uma vida emocionalmente saudável não precisa significar ausência de dependência. Existem formas de dependência que fazem parte dos vínculos humanos. Confiar que alguém estará disponível, poder pedir ajuda, sentir falta, compartilhar vulnerabilidades e permitir que outra pessoa tenha importância em nossa vida não são necessariamente sinais de fragilidade.
Talvez a questão seja outra: quanto espaço existe para que duas pessoas permaneçam inteiras dentro da relação? É diferente poder contar com alguém e acreditar que não se consegue existir sem essa pessoa.
Nem toda dificuldade afetiva está “dentro” de quem sofre
Também é importante não transformar todo sofrimento amoroso em um problema individual.
As formas de se relacionar mudaram. Aplicativos, redes sociais, disponibilidade permanente de novas possibilidades, relações à distância, mudanças nos papéis de gênero e diferentes modelos de vínculo atravessam a maneira como as pessoas se encontram.
Para pessoas LGBT+, outras experiências também podem participar dessa história. Rejeição familiar, preconceito, medo de exposição, relações que precisaram ser vividas em segredo e experiências de não pertencimento podem deixar marcas na maneira como intimidade e confiança são construídas.
Por isso, compreender dificuldades afetivas não significa simplesmente procurar “o que há de errado comigo”.
A história individual importa, mas ela não acontece fora do mundo.
E quando eu já aprendi a ficar sozinho?
Talvez esta seja uma das perguntas menos discutidas.
E quando a pessoa já viaja sozinha, mora sozinha, trabalha, tem amigos, cuida da própria vida, desenvolveu autonomia e mesmo assim gostaria de ter alguém?
Talvez não exista nada para “corrigir” nesse desejo.
O trabalho pode estar em compreender como essa pessoa entra nas relações, o que espera delas, o que teme perder, o que acontece quando alguém se aproxima e de que maneira experiências anteriores continuam participando dos vínculos atuais.
Às vezes chegamos à terapia querendo descobrir como deixar de precisar do outro e encontramos uma pergunta diferente: como permitir que alguém tenha importância sem desaparecer dentro dessa relação?
A terapia também exige olhar para a própria participação nos vínculos
Reconhecer que desejar uma relação é legítimo não significa colocar toda a responsabilidade no outro. Relacionamentos revelam aspectos nossos que dificilmente aparecem da mesma maneira quando estamos sozinhos.
Ciúmes, expectativas, formas de comunicação, silêncios, necessidade de controle, medo de abandono, dificuldade de estabelecer limites e maneiras de reagir ao conflito também podem ser examinados. Às vezes chegamos à terapia querendo uma testemunha para aquilo que o outro fez e encontramos também um espelho.
Isso não significa assumir culpa por tudo o que aconteceu. Significa poder diferenciar aquilo que pertence ao outro daquilo que, em nossa maneira de nos relacionar, pode ser compreendido e transformado.
Para além do “ame-se a si mesmo”
Amar a si mesmo pode ser importante para construir relações mais livres. Mas talvez não seja necessário transformar autossuficiência em ideal psicológico.
Podemos gostar da própria companhia e sentir falta de alguém.
Podemos ter autoestima e sofrer uma rejeição.
Podemos construir autonomia e ainda desejar intimidade.
Podemos estar bem conosco e querer compartilhar a vida.
Talvez amadurecer emocionalmente não seja aprender a não precisar de ninguém, mas conseguir se relacionar sem exigir que o outro resolva aquilo que somente nós podemos elaborar e, ao mesmo tempo, sem negar que também precisamos de vínculos.
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