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Redes sociais e solidão na vida adulta: quando a conexão não basta

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 6 dias
6 min de leitura

Uma pessoa pode passar horas respondendo mensagens, assistindo a vídeos e acompanhando a vida de conhecidos, mas terminar o dia com a sensação de que não foi realmente vista por ninguém. Redes sociais e solidão podem conviver de uma forma aparentemente contraditória: nunca estivemos tão conectados e, ainda assim, estar conectado não significa necessariamente sentir-se acompanhado.

O problema não se explica apenas pelo número de horas diante do celular. Ele aparece na forma como cada pessoa lida com comparação, exposição, rejeição, silêncio e necessidade de pertencimento.

Redes sociais não são, por si só, inimigas da saúde mental. Elas aproximam pessoas distantes, oferecem informação, permitem encontros e podem ser especialmente importantes para quem vive situações de isolamento ou encontra poucas possibilidades de identificação no ambiente em que vive. A questão começa a mudar quando a conexão digital passa a substituir vínculos nos quais existe intimidade, reciprocidade e presença, ou quando intensifica inseguranças que já estavam ali.

Estar sozinho não é o mesmo que sentir solidão

Há uma diferença importante entre estar só e sentir-se só.

Momentos de solitude podem ser escolhidos, agradáveis e necessários. Algumas pessoas gostam de morar sozinhas, viajar sozinhas ou preservar períodos sem companhia. Isso não significa necessariamente isolamento.

A solidão é outra experiência. Ela aparece quando existe uma distância entre os vínculos que a pessoa possui e aqueles de que sente necessidade.

É possível ter poucos contatos e não se sentir sozinho. Também é possível ter centenas de mensagens, milhares de seguidores e continuar sentindo que não há ninguém com quem seja possível realmente conversar.

Por isso, a pergunta clínica não é simplesmente quantas pessoas existem ao redor, mas que tipo de vínculo está disponível quando algo importante acontece.

Quando a solidão também aparece acompanhada de dificuldades recorrentes para criar, sustentar ou confiar em vínculos, esse tema pode ser trabalhado na psicoterapia para relacionamentos, sem reduzir a questão à ideia de que basta usar menos o celular ou sair mais de casa.

Quando a conexão produz mais comparação do que encontro

As redes permitem acompanhar uma quantidade enorme de vidas ao mesmo tempo.

Corpos, viagens, casamentos, carreiras, festas, conquistas profissionais e rotinas aparentemente organizadas aparecem em sequência. É fácil comparar uma vida vivida por dentro, com dúvidas, frustrações e dias ruins, com recortes cuidadosamente escolhidos da vida dos outros.

Mesmo sabendo racionalmente que aquilo é uma seleção, a comparação pode tocar em inseguranças bastante concretas.

Por que todo mundo parece estar se relacionando menos eu?

Por que as outras pessoas parecem ter mais amigos?

Por que alguém da minha idade já construiu tudo aquilo e eu ainda não?

Por que aquela pessoa visualizou e não respondeu?

Pequenos acontecimentos digitais podem adquirir um peso muito maior quando encontram experiências anteriores de rejeição, abandono ou inadequação.

A ausência de uma curtida ou de uma resposta não cria sozinha uma insegurança profunda. Mas pode encontrar uma insegurança que já existe.

É também por isso que a lógica dos aplicativos de relacionamento merece atenção. A possibilidade de conhecer muitas pessoas pode ampliar encontros, mas também convive com ghosting, comparação constante, rejeições rápidas e a sensação de que sempre existe alguém substituível a poucos movimentos de distância.

Redes sociais, pertencimento e pessoas LGBTQIA+

Para muitas pessoas LGBTQIA+, a internet teve e continua tendo uma função importante de pertencimento.

Encontrar histórias parecidas, referências positivas e outras formas de viver relações, sexualidade e identidade pode diminuir o isolamento de quem cresceu acreditando ser a única pessoa a sentir ou desejar determinadas coisas.

Nesse sentido, as redes podem aproximar.

Mas também podem reproduzir exclusões.

Padrões de corpo, masculinidade, feminilidade, idade, aparência, classe e desejo circulam intensamente nesses espaços. A sensação de pertencimento pode começar a depender da capacidade de corresponder a determinados ideais.

Para algumas pessoas, o resultado é uma experiência ambígua: o mesmo espaço que oferece identificação também produz comparação e sensação de inadequação.

Essas questões podem ser trabalhadas sem transformar orientação sexual ou identidade em problema. No artigo sobre psicoterapia para LGBTs, aprofundo como contexto social, vínculos e história individual podem se encontrar no sofrimento psíquico.

Quando o uso das redes começa a aumentar o isolamento

Não existe uma quantidade universal de horas de tela que determine que alguém está fazendo um uso problemático das redes.

Mais importante do que contar horas é observar o efeito daquele uso sobre a vida.

Alguns sinais merecem atenção quando começam a se repetir:

  • entrar nas redes para aliviar tristeza e sair delas se sentindo pior, mais inadequado ou mais vazio;

  • perder sono ou compromissos porque é difícil interromper o uso;

  • sentir ansiedade intensa diante da falta de respostas ou da necessidade de acompanhar o que outras pessoas estão fazendo;

  • perceber que contatos digitais substituíram quase completamente relações nas quais existe confiança e reciprocidade;

  • abandonar progressivamente atividades, encontros e interesses que antes faziam parte da rotina.

Esses sinais não definem um diagnóstico.

Às vezes, o uso excessivo da tela é o problema mais visível, mas não necessariamente o problema principal.

Pode haver ansiedade, luto, esgotamento, dificuldades afetivas ou um quadro depressivo por trás do afastamento. Na depressão, por exemplo, isolamento, perda de energia e diminuição do interesse pelas coisas podem fazer com que a vida vá se estreitando gradualmente.

Por isso, simplesmente retirar o celular nem sempre resolve aquilo que levou a pessoa a buscá-lo tanto.

Reduzir o tempo de tela resolve a solidão?

Às vezes ajuda.

Desligar notificações, estabelecer períodos sem celular ou retirar alguns aplicativos da tela inicial pode devolver atenção e interromper automatismos.

Mas existe uma diferença entre reduzir um comportamento e compreender sua função.

Se alguém abre uma rede toda vez que sente ansiedade, rejeição ou vazio, é possível limitar o aplicativo e continuar sem saber o que fazer quando aquela sensação aparece.

Da mesma maneira, recomendar que uma pessoa solitária simplesmente “saia mais” ignora que construir vínculo não é uma tarefa puramente comportamental.

Há pessoas que querem proximidade e, ao mesmo tempo, têm medo dela.

Outras se aproximam esperando rejeição e passam a interpretar pequenos sinais como confirmação de que não serão escolhidas.

Há quem converse diariamente com muitas pessoas, mas tenha enorme dificuldade de mostrar fragilidade para qualquer uma delas.

É aí que a questão deixa de ser apenas digital.

O que a psicoterapia pode oferecer

Na psicoterapia, o objetivo não é fiscalizar o tempo de tela nem prescrever uma vida social ideal.

O trabalho pode começar tentando compreender o que acontece antes de pegar o celular e o que se procura encontrar ali.

Descanso?

Distração?

Reconhecimento?

Contato?

Alívio de uma angústia?

A confirmação de que determinada pessoa ainda está disponível?

Essas respostas não precisam ser as mesmas para todos.

Também pode ser importante observar a maneira como os vínculos são construídos. Algumas pessoas se protegem tanto de uma possível rejeição que quase ninguém consegue se aproximar. Outras se adaptam continuamente ao que imaginam que o outro deseja e terminam relações sem saber exatamente onde ficaram suas próprias vontades.

Nesses casos, diminuir o uso das redes pode ser útil, mas provavelmente não será suficiente.

Quando há sintomas mais intensos ou suspeita de um transtorno mental, o acompanhamento também pode precisar ser mais estruturado e, quando indicado, articulado à psiquiatria. Levar um diagnóstico em consideração não significa reduzir uma pessoa a ele.

Conexão não é o mesmo que vínculo

A solidão dificilmente desaparece apenas porque alguém decidiu publicar menos, responder mais mensagens ou aumentar o número de encontros.

Um vínculo exige algo que as métricas das redes não conseguem medir com facilidade: confiança, presença, reciprocidade e a possibilidade de existir diante do outro sem precisar sustentar permanentemente uma versão interessante de si mesmo.

Talvez o problema não seja estarmos conectados demais ou de menos.

A questão pode estar em quanto dessa conexão consegue efetivamente se transformar em encontro.

É dessa forma que procuro trabalhar questões relacionadas à solidão e aos vínculos: sem partir da ideia de que a pessoa simplesmente precisa socializar mais ou abandonar as redes, mas tentando compreender que lugar essas relações ocupam em sua vida, quais dificuldades se repetem e o que pode ser construído de outra maneira.

Atendo adultos presencialmente em São Paulo, na região de Cerqueira César e Jardins. Para quem está em outra cidade ou prefere esse formato, também realizo psicoterapia online para relacionamentos.

Para dúvidas, informações ou agendamento de uma primeira consulta, entre em contato comigo pelo WhatsApp.

 
 
 

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