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Excesso de diagnósticos em saúde mental: um sinal dos nossos tempos?

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 2 dias
5 min de leitura

“Isso é ansiedade.” “Tenho TDAH.” “Ele é narcisista.” “Devo ser bipolar.” “Isso é dependência emocional.”

O vocabulário da saúde mental saiu dos consultórios e passou a fazer parte das conversas cotidianas. Em muitos aspectos, isso representa um avanço. Pessoas conseguem reconhecer sofrimentos que antes eram tratados como fraqueza, falta de vontade ou simples característica de personalidade.

Mas existe também uma questão que merece atenção: em que momento encontrar palavras para o sofrimento começa a se transformar na necessidade de dar um diagnóstico para praticamente tudo?

Nem toda tristeza é depressão. Nem toda oscilação de humor indica transtorno bipolar. Nem toda distração significa TDAH. Nem toda relação difícil envolve uma personalidade narcisista.

Ao mesmo tempo, minimizar sintomas importantes também pode ser perigoso.

Entre transformar qualquer sofrimento em doença e tratar um transtorno mental como “fase” ou falta de esforço, existe um trabalho clínico muito mais cuidadoso.

Quando todo sofrimento precisa ganhar um nome

Receber um diagnóstico pode trazer alívio.

Para alguém que passou anos sem compreender crises, oscilações de humor ou dificuldades importantes na vida cotidiana, descobrir que existe uma condição reconhecida pode diminuir culpa e organizar o tratamento.

O diagnóstico também permite que diferentes profissionais falem uma linguagem comum, orienta decisões clínicas e pode ajudar a avaliar riscos e possibilidades de cuidado.

O problema começa quando o nome deixa de ser uma ferramenta e passa a funcionar como explicação completa para a pessoa.

“Sou assim porque tenho isso.”

A partir daí, experiências muito diferentes podem começar a ser interpretadas exclusivamente pelo diagnóstico: conflitos amorosos, escolhas profissionais, medo, raiva, sexualidade, frustrações e até características da própria personalidade.

Uma pessoa é sempre maior do que a categoria clínica que pode ajudá-la a compreender parte de seu sofrimento.

Na psicoterapia psicanalítica, uma das questões que podem ser trabalhadas é justamente essa relação entre sintomas, diagnóstico e história pessoal. Levar um transtorno mental a sério não significa deixar de perguntar quem é aquela pessoa para além dele.

Redes sociais e a linguagem do autodiagnóstico

A internet democratizou o acesso a informações sobre saúde mental.

Isso permitiu que muita gente reconhecesse sintomas, encontrasse comunidades e percebesse que determinadas experiências não precisavam ser enfrentadas sozinhas.

Mas informação rápida também possui limites.

Um vídeo de alguns segundos pode apresentar cinco sinais de determinada condição e produzir identificação imediata. O problema é que muitos sintomas psicológicos são inespecíficos.

Dificuldade para dormir pode aparecer na depressão, na ansiedade, no transtorno bipolar, no uso de substâncias, em situações de estresse ou simplesmente depois de uma mudança importante na vida.

Irritabilidade pode estar relacionada a sofrimento psíquico, privação de sono, conflitos afetivos, condições clínicas ou a uma situação concreta que realmente está deixando alguém irritado.

Perder o interesse pelas coisas pode ser um sinal importante de depressão, mas também pode aparecer em um luto, em um período de esgotamento ou depois de uma ruptura importante. No artigo sobre quando buscar um psicólogo para depressão, aprofundo alguns sinais que merecem atenção clínica sem transformar qualquer tristeza em diagnóstico.

O diagnóstico não é feito pela presença isolada de um sintoma.

Ele exige contexto, duração, intensidade, impacto sobre a vida, história e avaliação clínica.

Quando o diagnóstico vira identidade

Existe uma diferença entre dizer “tenho transtorno bipolar” e começar a compreender toda a própria existência a partir da bipolaridade.

O mesmo acontece com depressão, ansiedade, TDAH ou qualquer outra condição.

Um diagnóstico pode explicar parte do que acontece. Não necessariamente explica por que alguém escolhe determinados parceiros, por que determinada perda possui um peso tão grande, por que existe tanta dificuldade em colocar limites ou por que certos conflitos continuam se repetindo.

No transtorno bipolar, por exemplo, reconhecer alterações de humor, acompanhar sintomas e manter tratamento adequado pode ser fundamental. Isso não elimina a necessidade de compreender vínculos, história, autoestima, perdas e os efeitos que o próprio diagnóstico passa a produzir na vida.

Há pessoas que, depois de receberem um nome para seu sofrimento, começam finalmente a se compreender melhor.

Outras passam a se vigiar o tempo todo.

Qualquer alegria mais intensa pode parecer hipomania.

Um dia triste pode ser interpretado como recaída.

Uma discussão pode virar sintoma.

O cuidado precisa ajudar a diferenciar essas experiências, não aumentar o medo de senti-las.

O outro risco: negar diagnósticos reais

Por outro lado, criticar o excesso de rótulos não significa defender que diagnósticos não existam ou sejam desnecessários.

Esse seria apenas o extremo oposto.

Depressão grave, transtorno bipolar, psicose, transtornos de ansiedade e outras condições podem produzir sofrimento intenso, prejuízo funcional e risco significativo.

Nesses casos, insistir que tudo é apenas resultado da história pessoal ou que a pessoa deveria simplesmente elaborar melhor seus conflitos também pode produzir dano.

Há momentos em que psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico precisam trabalhar juntos.

Uma prática clínica responsável precisa conseguir sustentar essas duas dimensões: reconhecer a realidade de um transtorno mental e, ao mesmo tempo, não reduzir a pessoa a ele.

Nem todo sofrimento precisa virar doença

A vida humana também produz sofrimento sem que exista necessariamente um transtorno.

Perder alguém dói.

Ser rejeitado dói.

Terminar uma relação pode desorganizar temporariamente a vida.

Mudar de cidade, envelhecer, perder um emprego, cuidar de alguém adoecido ou perceber que determinados projetos não aconteceram como imaginado pode provocar ansiedade, tristeza, irritação e medo.

Isso não significa que essas experiências sejam pequenas.

Também não significa que não possam ser trabalhadas em psicoterapia.

A diferença é não precisar transformar toda dor em patologia para reconhecer que ela merece atenção.

Há sofrimentos que pedem tratamento de um transtorno mental.

Há outros que pedem elaboração.

E há situações em que as duas coisas coexistem.

O que a psicoterapia pode oferecer além do diagnóstico

Uma das funções da psicoterapia é justamente devolver complexidade àquilo que parece ter encontrado uma explicação simples demais.

O diagnóstico pode entrar na sala.

Mas entram também a infância, os relacionamentos, as escolhas, os medos, as perdas, os desejos, as contradições e aquilo que a pessoa ainda não consegue compreender sobre si.

Na psicoterapia de orientação analítica, o interesse não está apenas em perguntar “qual transtorno esta pessoa possui?”, mas também em compreender como ela construiu sua forma de estar no mundo e que lugar determinados sintomas passaram a ocupar em sua história.

Isso não significa ignorar sintomas.

Em situações de maior gravidade, o trabalho precisa ser ativo, considerar riscos, acompanhar mudanças importantes e reconhecer quando outros profissionais ou formas de cuidado são necessários.

Mas existe uma diferença entre tratar um transtorno e tratar uma pessoa que possui um transtorno.

Essa diferença importa.

Quando procurar avaliação

Algumas experiências merecem avaliação profissional especialmente quando persistem, se intensificam ou começam a produzir prejuízo importante.

Alterações intensas e prolongadas de humor, perda significativa de interesse, crises recorrentes de ansiedade, mudanças importantes no sono, impulsividade incomum, uso problemático de álcool ou outras drogas, pensamentos de morte ou dificuldade de manter trabalho, estudos e relações são exemplos de situações que não deveriam ser reduzidas a um conteúdo visto nas redes.

Também não é necessário chegar com um diagnóstico pronto.

A primeira pergunta pode simplesmente ser:

“o que está acontecendo comigo?”

A avaliação existe justamente para que essa pergunta possa ser investigada.

Um nome pode ajudar, mas não precisa explicar tudo

Talvez um dos desafios atuais da saúde mental seja conseguir falar mais sobre sofrimento sem transformar toda experiência humana em doença.

Os diagnósticos podem organizar, proteger e orientar tratamentos.

Também podem se tornar estreitos quando passam a ocupar o lugar da história inteira.

Não precisamos escolher entre uma clínica que ignora transtornos mentais e outra que enxerga apenas sintomas.

É possível reconhecer um diagnóstico quando ele existe e ainda perguntar pela pessoa que continua ali.

É dessa forma que procuro conduzir meu trabalho: considerando sintomas e diagnósticos quando são relevantes, mas sem abandonar a singularidade, os vínculos, a história e aquilo que não cabe inteiramente em uma classificação.

Atendo adultos presencialmente em São Paulo, na região de Cerqueira César, próximo à Avenida Paulista. Para quem está em outra cidade ou prefere esse formato, também realizo psicoterapia psicanalítica online.

Para dúvidas, informações ou agendamento de uma primeira consulta, entre em contato comigo pelo WhatsApp.

 
 
 

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