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Depressão entre pessoas LGBT+: quando o sofrimento psíquico também é atravessado pela experiência de ser LGBT

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 7 horas
7 min de leitura

Pessoas LGBT não desenvolvem depressão porque são LGBT.


Essa distinção parece simples, mas é importante. A orientação sexual ou a identidade de gênero não constituem, por si mesmas, um problema de saúde mental. Ao mesmo tempo, ninguém adoece fora de uma história, de seus vínculos e do ambiente em que vive.


Rejeição familiar, preconceito, necessidade constante de avaliar se é seguro se expor, experiências de violência, solidão, dificuldades nos relacionamentos e a sensação de não pertencer podem participar da história de sofrimento de algumas pessoas LGBT.


Em outros casos, a depressão estará relacionada principalmente a perdas, conflitos, fatores biológicos, questões profissionais, familiares ou a outros elementos da vida que não têm relação direta com sexualidade ou gênero.


O trabalho clínico começa justamente quando conseguimos evitar os dois extremos: atribuir todo sofrimento ao fato de alguém ser LGBT ou agir como se essa dimensão da vida nunca tivesse importância.


Depressão é uma condição de saúde mental, não uma consequência da orientação sexual


A depressão pode envolver tristeza persistente, perda de interesse, alterações do sono e do apetite, dificuldade de concentração, redução de energia, sentimento de culpa, desesperança e, em alguns casos, pensamentos relacionados à morte.


Nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas e nem todo período de tristeza corresponde a um transtorno depressivo. Por isso, uma avaliação cuidadosa precisa considerar duração, intensidade, prejuízo na vida cotidiana, história anterior e outros possíveis diagnósticos.


Estudos e revisões sistemáticas vêm encontrando uma frequência maior de problemas depressivos entre minorias sexuais e de gênero quando comparadas à população heterossexual e cisgênero. Isso, porém, não significa que ser LGBT provoque depressão. Parte importante da literatura aponta para o impacto de fatores como estigma, discriminação, violência, rejeição e menor suporte social.


É o que a literatura sobre estresse de minoria procura compreender: além dos estressores que qualquer pessoa pode enfrentar, determinados grupos convivem também com pressões relacionadas à maneira como sua existência é recebida socialmente.


Uma revisão sistemática sobre depressão entre minorias sexuais encontrou justamente associações com experiências como vitimização, assédio, abuso, maior exposição ao estresse e menor apoio familiar e social.


Isso muda uma pergunta importante.


Em vez de perguntar “por que pessoas LGBT têm depressão?”, talvez seja mais adequado perguntar: que experiências podem aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico de determinadas pessoas LGBT?


Quando o ambiente também entra na clínica


Nem sempre o preconceito aparece de maneira explícita.

Há pessoas que nunca foram expulsas de casa, agredidas fisicamente ou diretamente discriminadas, mas passaram anos aprendendo a observar o ambiente antes de falar sobre a própria vida.


Posso contar que namoro? Posso levar meu parceiro a esse lugar? Essa pessoa vai mudar a forma de me tratar se souber? Meu chefe pode descobrir? Minha família realmente aceita ou apenas evita o assunto?


Quando essas perguntas começam cedo e se repetem durante muitos anos, elas podem participar da forma como alguém se relaciona consigo mesmo e com os outros.

Também existem experiências mais silenciosas. Homens e mulheres que foram aceitos pela família, construíram carreira, relações e autonomia, mas ainda carregam vergonha do próprio desejo. Pessoas que se tornaram extremamente autossuficientes porque aprenderam cedo que depender emocionalmente de alguém poderia ser perigoso. Outras que passaram a buscar validação constante através do corpo, da sexualidade, do trabalho ou dos relacionamentos.


Nada disso significa que exista uma personalidade LGBT ou uma maneira única de viver essas experiências. Significa apenas que a vida psíquica também é construída na relação com o mundo.


O risco de explicar tudo pela sexualidade


Existe também o problema contrário.


Uma pessoa LGBT procura ajuda por depressão e toda a sua experiência começa a ser interpretada a partir da orientação sexual. Nem sempre é assim. Uma pessoa gay pode ter depressão após um luto. Pode atravessar uma crise profissional. Pode apresentar transtorno bipolar. Pode sofrer com conflitos familiares que nada têm a ver com sua sexualidade. Pode chegar à psicoterapia depois de anos de um relacionamento difícil. Pode estar enfrentando solidão, compulsões, uso problemático de substâncias ou simplesmente não conseguir compreender por que perdeu o interesse pela própria vida.


É por isso que, no meu trabalho com psicoterapia para pessoas LGBT, procuro considerar a experiência LGBT quando ela é relevante, sem transformar essa dimensão na explicação automática para todo sofrimento.


Uma boa avaliação clínica precisa conseguir sustentar perguntas diferentes ao mesmo tempo. O que pertence à história singular daquela pessoa? O que está acontecendo naquele momento de sua vida? Existe um quadro depressivo? Há outro transtorno que precisa ser considerado? Como estão os relacionamentos, o trabalho, o sono, a sexualidade e o uso de álcool ou outras substâncias? E de que maneira a experiência de ser LGBT participa, ou não, desse sofrimento?


Relacionamentos, solidão, desejo e depressão podem se misturar


Na clínica, as questões raramente chegam organizadas em categorias.


Uma pessoa pode procurar terapia dizendo que perdeu a libido e, durante o processo, perceber que também está deprimida. Outra pode chegar por causa do término de um relacionamento e descobrir que já vinha se isolando, dormindo mal e perdendo o interesse por atividades que antes davam prazer.


Alguém pode acreditar que seu problema está apenas nos aplicativos de relacionamento, no sexo ou na dificuldade de construir vínculos, quando esses comportamentos também estão acontecendo dentro de um período de profundo sofrimento emocional.

Entre pessoas LGBT, algumas questões relacionais ainda podem ganhar contornos particulares.

O tamanho mais restrito de determinadas redes afetivas, a sobreposição entre espaços de amizade, sexo e relacionamento, experiências de rejeição, relações abertas ou não monogâmicas, preconceito internalizado, diferenças na forma de viver publicamente a orientação sexual e conflitos relacionados ao pertencimento à própria comunidade podem entrar nessa equação.


Isso não significa que esses modelos de relação produzam sofrimento por si mesmos.

O ponto clínico é outro: compreender como aquela pessoa está vivendo seus vínculos.


Quando procurar ajuda para depressão?


Nem sempre é necessário esperar que a vida tenha parado completamente.


Alguns sinais merecem atenção quando persistem ou começam a produzir prejuízo:


  • perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram importantes;

  • isolamento crescente;

  • alterações importantes do sono ou do apetite;

  • cansaço persistente;

  • dificuldade para trabalhar, estudar ou cuidar da própria rotina;

  • sentimentos intensos de culpa, inutilidade ou desesperança;

  • redução importante do desejo sexual;

  • aumento do consumo de álcool ou outras substâncias;

  • sensação de que nada parece fazer sentido;

  • pensamentos recorrentes sobre morte ou vontade de desaparecer.


A presença de alguns desses sintomas não estabelece sozinha um diagnóstico. Ainda assim, pode indicar que vale a pena conversar com um profissional.


Na minha página sobre psicoterapia para depressão, explico com mais detalhes como funciona essa avaliação e de que maneira a psicoterapia pode fazer parte do tratamento.


Psicoterapia para pessoas LGBT com depressão


Uma psicoterapia sensível às questões LGBT não precisa transformar todas as sessões em conversas sobre sexualidade. Às vezes esse assunto será central. Em outras fases do tratamento, talvez quase não apareça.


O mais importante é que a pessoa não precise esconder ou editar partes da própria vida para ser compreendida. Um homem gay precisa poder falar sobre seu namorado, seus aplicativos, seus conflitos sexuais ou uma relação aberta com a mesma naturalidade com que outra pessoa fala sobre casamento, trabalho ou família. Uma pessoa bissexual não deveria precisar provar a própria orientação. Uma pessoa trans não deveria ter cada sofrimento automaticamente interpretado a partir da identidade de gênero.


Ao mesmo tempo, acolhimento não significa ausência de investigação clínica. Depressão, transtorno bipolar, uso problemático de substâncias, transtornos de ansiedade e outros quadros precisam ser reconhecidos quando estão presentes. Em algumas situações, a psicoterapia pode ser suficiente como parte principal do cuidado. Em outras, pode ser importante trabalhar em conjunto com psiquiatria ou outros profissionais de saúde.


Minha formação tem a Psicanálise como principal referência e sou pós graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. No acompanhamento de pessoas com depressão, procuro compreender não apenas o conjunto de sintomas, mas a história, os vínculos, as perdas, os conflitos e as formas que cada pessoa encontrou para lidar com aquilo que viveu.


A orientação sexual ou identidade de gênero pode fazer parte dessa história.

Mas a pessoa nunca se resume a ela.


Atendimento presencial em São Paulo ou psicoterapia online


Realizo atendimentos presenciais para adultos em São Paulo, na região de Cerqueira César e Jardins, próximo à Avenida Paulista.


Para pessoas de outras cidades, estados ou que preferem realizar o processo por videochamada, mantenho também psicoterapia online para depressão e atendimento psicológico LGBT online.


A escolha entre presencial e online pode considerar o momento clínico, a preferência da pessoa, sua rotina e a possibilidade de acesso ao consultório.


Pessoas LGBT têm mais depressão?

Diversos estudos identificam maior frequência de sintomas depressivos e transtornos depressivos entre populações LGBT quando comparadas a populações heterossexuais e cisgênero. Isso não significa que orientação sexual ou identidade de gênero sejam causas da depressão. Discriminação, violência, rejeição, estigma, menor suporte social e outras experiências podem contribuir para essas diferenças.


A depressão de uma pessoa LGBT é diferente?

O transtorno depressivo não se torna uma doença diferente por ocorrer em uma pessoa LGBT. O que pode mudar é o contexto em que o sofrimento se desenvolve e os fatores que precisam ser considerados durante o tratamento.


Preciso procurar necessariamente um psicólogo LGBT?

Não. A orientação sexual do psicólogo não determina sua capacidade profissional. O importante é encontrar alguém com formação adequada, postura ética e condições de compreender sua experiência sem preconceito, patologização ou curiosidade invasiva.

Para algumas pessoas, entretanto, saber que o profissional conhece mais de perto determinadas experiências da comunidade pode facilitar o vínculo e a liberdade para falar.


Psicoterapia LGBT significa falar sempre sobre sexualidade?

Não. Sexualidade e identidade aparecem quando forem relevantes para o processo. A psicoterapia pode envolver trabalho, família, depressão, ansiedade, relacionamentos, perdas, escolhas, compulsões, autoestima ou qualquer outra questão que faça parte da vida da pessoa.


Quando a depressão também precisa de avaliação psiquiátrica?

Depende da intensidade dos sintomas, do prejuízo na vida cotidiana, da história clínica e da presença de outros sinais. Quadros graves, risco de suicídio, alterações importantes de sono e funcionamento, episódios anteriores ou suspeita de outros transtornos podem tornar importante uma avaliação psiquiátrica além da psicoterapia.


Um cuidado que não reduz a pessoa nem ignora sua história


Falar de depressão entre pessoas LGBT exige algum cuidado.


Não faz sentido patologizar uma orientação sexual ou identidade de gênero. Também não faz sentido ignorar que viver em uma sociedade marcada por preconceitos pode produzir efeitos.


Entre esses dois extremos existe uma pessoa concreta, com uma história, relações, desejos, perdas, recursos e formas particulares de sofrer.


É essa pessoa que precisa ser escutada.


Atendo adultos presencialmente em São Paulo e também online. Caso queira conhecer horários disponíveis ou informações sobre o atendimento, você pode entrar em contato comigo pelo Whatsapp


Se houver risco imediato, intenção de suicídio ou impossibilidade de manter a própria segurança, a prioridade não é aguardar uma consulta de psicoterapia. Procure um serviço de urgência, acione o SAMU pelo 192 ou entre em contato com o CVV pelo 188.

 
 
 

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