Transtorno bipolar tem cura? O que é possível esperar do tratamento
A pergunta “transtorno bipolar tem cura?” muitas vezes aparece depois de períodos muito difíceis: uma depressão que parece não terminar, uma fase de muita aceleração, decisões das quais a pessoa se arrependeu depois, conflitos que deixaram marcas ou simplesmente o medo de precisar de tratamento para sempre.
A resposta precisa ser clara, mas não desanimadora. O transtorno bipolar é uma condição que, em geral, não é considerada pela medicina como algo que desaparece definitivamente. Isso, porém, está longe de significar uma vida inteira em crise.
Com diagnóstico bem feito, acompanhamento psiquiátrico quando necessário, psicoterapia e alguns cuidados importantes com a própria rotina, muitas pessoas passam longos períodos estáveis, retomam projetos, trabalham, constroem relações e aprendem a reconhecer melhor seus próprios ciclos.
Afinal, bipolaridade tem cura ou precisa de tratamento para sempre?
Talvez o problema esteja também na palavra “cura”. Quando pensamos em cura, imaginamos algo que desaparece e nunca mais precisa de atenção. No transtorno bipolar, costuma fazer mais sentido falar em estabilidade, prevenção de novos episódios e acompanhamento ao longo do tempo.
Episódios de depressão, mania ou hipomania podem se tornar menos frequentes e menos intensos e, em algumas pessoas, permanecer ausentes durante muitos anos.
Isso não significa que todos terão a mesma trajetória. Algumas pessoas atravessam períodos muito longos de estabilidade; outras precisam de ajustes mais frequentes no tratamento, principalmente em momentos de grande estresse, privação de sono, uso de álcool ou outras drogas, lutos, separações, mudanças profissionais ou acontecimentos que alterem muito a rotina.
Um ponto importante é que estar bem não significa necessariamente que o transtorno deixou de existir. Às vezes, justamente porque a pessoa está estável, surge a sensação de que já não precisa mais de tratamento. Interromper medicações ou modificar doses sem acompanhamento médico pode aumentar o risco de recaída.
Nem toda mudança de humor é transtorno bipolar
Também é importante separar bipolaridade das oscilações emocionais que fazem parte da vida.
Ficar triste depois de uma perda, irritado diante de um conflito ou muito entusiasmado com uma oportunidade não significa ser bipolar. O diagnóstico considera duração, intensidade, mudança em relação ao funcionamento habitual da pessoa, prejuízos provocados pelos episódios e todo o seu histórico.
Por isso, listas de sintomas, vídeos ou relatos nas redes sociais podem até levantar uma dúvida, mas não substituem uma avaliação cuidadosa.
Ansiedade, TDAH, traumas, transtornos de personalidade, uso de substâncias, alguns medicamentos e determinadas condições clínicas também podem produzir sintomas semelhantes ou coexistir com o transtorno bipolar.
Como aparecem os episódios de depressão, mania e hipomania
Durante uma depressão bipolar, podem aparecer perda de interesse, isolamento, falta de energia, sensação de vazio, culpa, alterações importantes no sono, dificuldade para realizar tarefas e pensamentos de morte.
Nem sempre a tristeza é o que mais aparece. Algumas pessoas ficam predominantemente irritadas. Outras continuam trabalhando e cumprindo compromissos, mas às custas de um esforço enorme que quase ninguém percebe.
Podem aparecer gastos excessivos, projetos grandiosos, decisões precipitadas, aumento da atividade sexual, conflitos e uma sensação de que limites que normalmente seriam considerados já não fazem tanto sentido.
A diferença entre mania e hipomania não está apenas em “ter mais ou menos energia”. A mania costuma produzir prejuízos importantes e, em alguns casos, sintomas psicóticos ou necessidade de hospitalização. A hipomania pode ser mais difícil de perceber porque, no começo, pode ser vivida como uma fase particularmente produtiva, criativa ou agradável.
É justamente por isso que conhecer o próprio padrão ao longo do tempo é tão importante.
O diagnóstico ajuda, mas não precisa explicar tudo sobre você
Receber um diagnóstico pode ser um grande alívio para quem passou anos tentando entender por que certas coisas se repetiam.
Mas ele também pode provocar outro problema: começar a interpretar qualquer emoção, desejo, conflito ou escolha como consequência do transtorno bipolar.
Uma pessoa não deixa de ter história, desejos, medos, relações, fantasias, contradições e formas próprias de estar no mundo porque recebeu um diagnóstico.
O tratamento precisa reconhecer os sintomas e sua dimensão biológica, mas não precisa reduzir a pessoa a eles.
Na psicoterapia, também podem aparecer questões que não cabem numa lista de sintomas: aprender a lidar com frustrações, conhecer os próprios limites, reconhecer sua sensibilidade e intensidades, pensar sobre sonhos e aspirações, compreender relações, desejos e escolhas.
Tudo isso também faz parte de construir uma vida mais estável.
Para pessoas LGBTQIA+, é igualmente importante que orientação sexual ou formas de relacionamento não sejam confundidas com sintomas, sem deixar de considerar os efeitos que preconceito, violência, solidão e exclusão podem produzir na saúde mental.
O que realmente ajuda a construir estabilidade
Quando há um diagnóstico de transtorno bipolar ou uma suspeita consistente, psicoterapia e psiquiatria costumam ter funções diferentes e complementares.
A medicação pode ser fundamental para prevenir novos episódios, tratar depressão, mania ou hipomania e ajudar a proteger elementos importantes como sono, energia e estabilidade do humor. Qualquer mudança deve ser discutida com o médico responsável.
A psicoterapia entra em outro lugar.
Ela pode ajudar a reconhecer sinais precoces de que algo está mudando, compreender o que costuma anteceder determinadas crises, elaborar as consequências de episódios anteriores e construir estratégias para atravessar situações difíceis sem transformar a vida numa vigilância constante de si mesmo.
Existem alguns cuidados que merecem atenção especial:
sono e alterações importantes na necessidade de dormir;
rotina e a previsibilidade que ela pode oferecer;
atividade física;
uso de álcool e outras drogas;
acompanhamento da medicação e de seus efeitos;
rede de apoio;
percepção de mudanças importantes de energia, impulsividade ou humor.
Nada disso é irrelevante. Pelo contrário: pode fazer enorme diferença na prevenção de recaídas.
Mas a psicoterapia não precisa se resumir a isso.
Organizar o sono, por exemplo, é importante. Mas também pode ser interessante compreender por que alguém não consegue parar, por que precisa permanecer produtivo até a exaustão, o que acontece quando fica sozinho ou o que determinadas expectativas representam emocionalmente.
O que pode tornar o tratamento mais difícil
Uma das dificuldades do transtorno bipolar é que nem sempre a própria pessoa percebe que está entrando em um episódio.
Durante uma fase de mania, a sensação de potência, confiança ou liberdade pode fazer com que qualquer tentativa de colocar limites seja vivida como interferência ou controle.
Já na depressão, procurar ajuda pode parecer inútil ou exigir uma energia que simplesmente não está disponível naquele momento.
Por isso, construir previamente uma relação de confiança com profissionais e, quando possível, uma rede de apoio pode fazer diferença.
Outro problema comum são experiências ruins com tratamentos anteriores. Nem toda medicação funciona da mesma maneira para todas as pessoas, assim como nem todo paciente se adapta ao mesmo tipo de psicoterapia.
Trocar uma medicação que não funcionou, procurar outra opinião médica ou perceber que determinada abordagem psicoterapêutica não combina com você não significa que o tratamento fracassou.
Pode significar apenas que ele ainda está sendo construído.
E o estigma da bipolaridade?
Ainda existe uma tendência de associar bipolaridade a pessoas “instáveis”, imprevisíveis, difíceis ou incapazes de assumir responsabilidades.
Esse tipo de rótulo não ajuda ninguém e apaga a enorme diversidade existente entre pessoas que compartilham o mesmo diagnóstico.
Ter transtorno bipolar não elimina autonomia e também não autoriza familiares, parceiros ou empregadores a controlar toda a vida da pessoa em nome do tratamento.
Ao mesmo tempo, autonomia não significa ignorar momentos em que a capacidade de avaliação pode estar significativamente comprometida por um episódio grave.
Encontrar esse equilíbrio entre cuidado, autonomia e proteção também pode fazer parte do tratamento.
Quando é preciso procurar ajuda imediata
Algumas situações não devem esperar pela próxima sessão de psicoterapia.
Pensamentos suicidas com intenção ou planejamento, tentativa de suicídio, automutilação grave, vários dias praticamente sem dormir acompanhados de agitação crescente, delírios, alucinações, comportamento muito desorganizado ou situações com risco importante para si ou para outras pessoas exigem avaliação imediata.
Nesses casos, procure um serviço de urgência ou pronto-socorro e, sempre que possível, peça que alguém de confiança esteja junto.
Fora das situações de urgência, depressões recorrentes, períodos de aceleração e impulsividade, alterações marcantes no sono ou dúvidas persistentes sobre um diagnóstico também justificam uma avaliação profissional cuidadosa.
Um diagnóstico responsável não deveria ser feito às pressas nem a partir de um único sintoma.
É possível viver bem com transtorno bipolar?
Talvez por trás da pergunta “isso tem cura?” exista outra ainda mais importante:
“Vou conseguir viver sem ter medo de mim mesmo?”
Não existe como prometer uma vida sem novos episódios, assim como não existe uma vida completamente protegida de sofrimento.
Mas é possível conhecer melhor os próprios ciclos, reconhecer sinais antes que eles ganhem proporções maiores, construir relações de confiança, aprender a lidar com limites e frustrações e fazer escolhas com um pouco mais de tempo entre o impulso e a ação.
A estabilidade não precisa significar uma vida sem intensidade, desejo ou entusiasmo.Pode significar aprender a sustentar tudo isso de uma maneira que não precise terminar em destruição.
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