Olhos de mania: por que o olhar pode mudar durante um episódio de bipolaridade?
Vídeos nas redes sociais mostram pessoas que afirmam reconhecer o início de episódios de mania pelas mudanças nos próprios olhos. Mas será que pupilas dilatadas e um olhar mais brilhante podem realmente indicar uma alteração do humor? Entenda o que a ciência sabe sobre esse fenômeno.
Nas redes sociais, especialmente no Instagram, pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar têm compartilhado vídeos e fotografias comparando a aparência dos próprios olhos em diferentes momentos. Algumas relatam que conseguem identificar a aproximação de um episódio de mania ou hipomania ao perceber mudanças no olhar, como pupilas dilatadas, olhos mais brilhantes ou uma expressão mais intensa.
O fenômeno, conhecido popularmente como olhos de mania ou manic eyes, desperta curiosidade porque sugere que determinadas alterações do humor poderiam produzir sinais físicos perceptíveis.
Mas existe fundamento científico para essa observação?
A resposta exige alguns cuidados. Embora existam hipóteses neurobiológicas que relacionam alterações do sistema nervoso autônomo à aparência dos olhos durante episódios de mania, ainda não há evidências suficientes para considerar essas mudanças um sinal confiável de diagnóstico ou de previsão de episódios.

O que são os chamados olhos de mania?
A expressão "olhos de mania" não corresponde a um sintoma oficialmente reconhecido nos critérios diagnósticos do transtorno bipolar. Ela é utilizada informalmente para descrever determinadas características que algumas pessoas percebem durante episódios de mania ou hipomania, como:
Pupilas aparentemente mais dilatadas.
Olhos com brilho mais intenso.
Olhar mais fixo, expressivo ou penetrante.
Maior abertura das pálpebras.
Mudanças na expressão facial e no contato visual.
Essas observações não são necessariamente imaginárias. O estado emocional, a ativação fisiológica e as condições de sono podem modificar a expressão facial e algumas características dos olhos.
Entretanto, perceber essas mudanças não significa que elas sejam exclusivas da mania ou que estejam presentes em todas as pessoas com transtorno bipolar.
Por que as pupilas podem ficar dilatadas durante a mania?
Para compreender essa possibilidade, precisamos considerar o funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por regular diversas funções involuntárias do organismo, incluindo os batimentos cardíacos, a transpiração e o tamanho das pupilas.
As pupilas respondem principalmente à luminosidade, mas também podem sofrer alterações relacionadas à atenção, à excitação emocional e à ativação do organismo.
O sistema nervoso simpático, associado aos estados de alerta e mobilização, participa da dilatação pupilar. A noradrenalina é um dos neurotransmissores envolvidos nesse processo.
Durante episódios de mania, podem ocorrer alterações na atividade de sistemas neurobiológicos relacionados à dopamina e à noradrenalina. Uma das hipóteses científicas é que mudanças nessa atividade possam contribuir para uma maior dilatação das pupilas em algumas pessoas.
Essa possibilidade foi discutida em um artigo publicado em 2023 no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, pelos pesquisadores Gordon Parker, Minas Coroneo e Michael Spoelma. Os autores descreveram observações clínicas de olhos mais brilhantes e pupilas dilatadas durante episódios de mania e hipomania, propondo possíveis mecanismos neurobiológicos para explicar essas alterações.
É importante destacar, porém, que o artigo apresenta hipóteses e observações clínicas, e não a demonstração definitiva de que a mania provoca dilatação pupilar.
O que as pesquisas científicas realmente demonstram?
Uma investigação publicada no periódico Clinical and Experimental Optometry avaliou características das pupilas de pessoas com transtorno bipolar por meio de pupilometria automatizada.
O estudo comparou 39 pacientes, divididos entre episódios de mania, depressão e remissão, com 39 participantes saudáveis. Os pesquisadores não encontraram diferenças estatisticamente significativas no diâmetro pupilar entre os grupos avaliados.
Foi identificada uma diferença na velocidade média de dilatação pupilar entre o conjunto de pacientes com transtorno bipolar e o grupo de controle, mas com efeito pequeno. Também não foram observadas diferenças significativas entre os três estados de humor estudados.
Esses resultados indicam que a relação entre transtorno bipolar e alterações pupilares é mais complexa do que sugerem algumas publicações nas redes sociais.
Portanto, não é possível afirmar que pessoas em mania apresentam necessariamente pupilas maiores ou que a dilatação pupilar seja um marcador confiável de episódios maníacos.
Por que algumas pessoas percebem um brilho diferente nos olhos?
Além do tamanho das pupilas, outra característica frequentemente mencionada é a impressão de que os olhos ficam mais brilhantes ou intensos. Essa percepção pode envolver diferentes fatores. A maior abertura das pálpebras, as mudanças na expressão facial, a atenção visual e a maneira como a luz se reflete na superfície dos olhos podem contribuir para essa impressão.
Durante episódios de mania, algumas pessoas apresentam maior excitação, agitação psicomotora, expressividade e mudanças no contato visual. O olhar pode parecer mais vivo ou intenso, mas isso não significa que exista necessariamente uma alteração estrutural nos olhos.
A própria privação de sono, frequente durante episódios de mania, também pode modificar a aparência ocular, embora possa produzir sinais como vermelhidão e irritação.
Os olhos podem mudar de cor durante a mania?
Algumas publicações sugerem que os olhos poderiam ficar mais escuros durante episódios de mania. Uma explicação possível envolve a dilatação das pupilas.
Quando a pupila aumenta de tamanho, a região escura central do olho ocupa uma área maior, reduzindo a porção visível da íris. Dependendo da iluminação e da cor natural dos olhos, isso pode produzir a impressão de que estão mais escuros.
Entretanto, não existem evidências consistentes de que episódios de mania provoquem uma mudança real na pigmentação da íris. O que pode mudar é a aparência percebida, não necessariamente a cor dos olhos.
É possível identificar o início de uma crise de mania pelos olhos?
Essa é provavelmente a questão mais importante levantada pelos vídeos que circulam nas redes sociais. Algumas pessoas com transtorno bipolar relatam reconhecer mudanças no próprio olhar antes ou durante episódios de alteração do humor. Essas percepções individuais merecem ser escutadas, especialmente quando fazem parte de um histórico de autoconhecimento e acompanhamento clínico.
Entretanto, reconhecer uma associação pessoal não significa que ela possa ser generalizada para outras pessoas. Também existe uma diferença importante entre perceber retrospectivamente que os olhos estavam diferentes durante um episódio e demonstrar que essa alteração consegue antecipar uma crise.
Até o momento, não existem evidências suficientes para utilizar fotografias, vídeos ou a observação isolada das pupilas como instrumentos confiáveis para prever episódios de mania.
A identificação precoce deve considerar um conjunto mais amplo de mudanças comportamentais, emocionais e fisiológicas. Para compreender como essas alterações são avaliadas clinicamente, leia também o artigo Diagnóstico do transtorno bipolar: como é feito e o que é avaliado.
Quais sinais são mais importantes para reconhecer o início de um episódio de mania?
No acompanhamento do transtorno bipolar, algumas mudanças costumam ter maior relevância clínica do que a aparência dos olhos.
Entre elas estão:
Diminuição da necessidade de sono: dormir poucas horas e, ainda assim, sentir-se cheio de energia, sem o cansaço esperado.
Aumento incomum da energia: assumir muitas atividades simultaneamente ou apresentar agitação maior que o habitual.
Aceleração do pensamento e da fala: falar mais rapidamente, mudar constantemente de assunto ou experimentar pensamentos que parecem não parar.
Mudanças no humor: euforia, irritabilidade ou sensação exagerada de confiança.
Impulsividade: aumento de gastos, decisões precipitadas ou envolvimento em situações de risco.
Mudanças no comportamento sexual: aumento acentuado do desejo ou envolvimento em experiências sexuais impulsivas, quando isso representa uma mudança significativa em relação ao funcionamento habitual.
Esses sinais precisam ser avaliados considerando a duração, a intensidade, o contexto e as repercussões na vida da pessoa. É importante lembrar que nem todos os episódios de mania envolvem euforia. Irritabilidade intensa e agitação também podem estar presentes.
Pupilas dilatadas podem ter outras causas?
Sim. A dilatação pupilar pode acontecer por diversos motivos que não estão relacionados ao transtorno bipolar. Ambientes pouco iluminados, emoções intensas, estresse, determinados medicamentos e o consumo de substâncias psicoativas podem modificar o tamanho das pupilas.
Por exemplo, estimulantes como anfetaminas e cocaína podem provocar dilatação pupilar e também produzir alterações comportamentais que, em determinadas situações, se assemelham a sintomas maníacos.
Alguns medicamentos também podem interferir na resposta pupilar.
Por isso, a observação dos olhos não permite distinguir, isoladamente, um episódio de mania de outras condições clínicas ou fisiológicas. Uma dilatação pupilar súbita, especialmente quando ocorre em apenas um olho ou acompanhada de dor, alteração visual ou sintomas neurológicos, exige avaliação médica urgente.
O risco de transformar os olhos de mania em um autodiagnóstico
As redes sociais podem contribuir para ampliar o conhecimento sobre saúde mental, especialmente quando pessoas compartilham experiências que antes permaneciam pouco discutidas.
Entretanto, existe um risco quando observações individuais passam a ser apresentadas como sinais universais de uma condição psiquiátrica. Uma pessoa pode interpretar suas pupilas dilatadas como evidência de mania, mesmo sem apresentar outras alterações relevantes.
Da mesma forma, alguém com transtorno bipolar pode deixar de reconhecer o início de um episódio porque não percebe nenhuma mudança nos próprios olhos. O transtorno bipolar não pode ser diagnosticado por fotografias, vídeos ou características da expressão facial.
O diagnóstico exige uma avaliação clínica que considere a história de vida, os episódios anteriores, as alterações do humor, os padrões de sono, o comportamento e outros fatores relevantes.
Como a psicoterapia pode ajudar a reconhecer os primeiros sinais de mania?
Uma dimensão importante do acompanhamento psicológico de pessoas com transtorno bipolar é a identificação dos sinais individuais que costumam anteceder alterações do humor.
Cada pessoa pode apresentar um padrão particular.
Algumas percebem primeiro mudanças no sono. Outras identificam aumento da irritabilidade, aceleração dos pensamentos, maior sociabilidade ou impulsividade.
O trabalho psicoterapêutico pode contribuir para reconhecer esses padrões, compreender situações de vulnerabilidade, acompanhar mudanças de comportamento e desenvolver estratégias para lidar com os primeiros sinais de desestabilização.
Nesse processo, observações pessoais sobre o olhar também podem ser discutidas, sem que sejam tratadas como critérios diagnósticos. O acompanhamento psiquiátrico, a regularidade do sono e a adesão ao tratamento prescrito continuam sendo componentes fundamentais do cuidado.
Para pessoas que procuram acompanhamento psicológico, realizo psicoterapia para bipolaridade presencial em São Paulo e também ofereço atendimento psicológico online para transtorno bipolar, inclusive para quem reside em outras cidades do Brasil ou no exterior.
Quando surgem sinais de possível mania ou hipomania, é importante procurar prontamente a equipe responsável pelo tratamento, sem aguardar que o episódio se intensifique. Em situações de agitação grave, comportamento perigoso, sintomas psicóticos ou incapacidade de manter a própria segurança, deve-se buscar atendimento de urgência.
Afinal, os olhos de mania existem?
A expressão popular descreve um fenômeno que algumas pessoas relatam perceber, e existem hipóteses científicas plausíveis para determinadas mudanças na aparência ocular durante episódios de mania. Entretanto, os estudos disponíveis ainda não demonstram que essas alterações sejam constantes, específicas ou suficientemente confiáveis para identificar episódios maníacos.
A questão mais importante talvez não seja descobrir se a mania pode ser vista nos olhos, mas compreender como cada pessoa reconhece as mudanças que acontecem consigo mesma.
No transtorno bipolar, aprender a identificar os primeiros sinais de alteração do humor pode fazer diferença na procura precoce por cuidado e na prevenção de agravamentos.
E reconhecer esses sinais não significa que uma pessoa precise viver permanentemente preocupada com uma nova crise. O acompanhamento adequado pode favorecer períodos prolongados de estabilidade e uma vida satisfatória.
Sobre as possibilidades e os limites do tratamento, aprofundo essa discussão no artigo Transtorno bipolar tem cura? O que é possível esperar do tratamento.
Sobre o autor
Rodrigo Toledo Potechi é psicólogo clínico, CRP 06/001760-IS, pós-graduado em Saúde Mental pela Santa Casa de São Paulo. Atua no acompanhamento psicológico de adultos, incluindo pessoas com transtornos do humor, dificuldades nos relacionamentos, compulsões e outras questões de saúde mental.
Realiza atendimento presencial em São Paulo e psicoterapia online.
Para informações sobre psicoterapia ou agendamento de uma primeira consulta, entre em contato pelo WhatsApp.
Referências científicas
Parker, G., Coroneo, M. T., & Spoelma, M. J. (2023). Bipolar eyes: Windows to the pole? Australian & New Zealand Journal of Psychiatry. https://doi.org/10.1177/00048674231195259
Biçer, G. Y., Kurt, A., & Zor, K. R. (2023). Efficacy of automatic pupillometry as a screening technique to detect autonomic dysfunction in bipolar disorder. Clinical and Experimental Optometry. https://doi.org/10.1080/08164622.2022.2145182
National Institute of Mental Health. Bipolar Disorder. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/bipolar-disorder

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