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Diagnóstico do transtorno bipolar: como é feito e o que é avaliado

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
31 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Há pessoas que passam meses em depressão, sem energia para trabalhar, responder mensagens ou sustentar vínculos. Em outros períodos, dormem pouco, assumem gastos incomuns, sentem-se invencíveis ou entram em conflitos que depois parecem difíceis de entender. Ao falar sobre diagnóstico do transtorno bipolar, é preciso começar com uma cautela: oscilações de humor existem em muitas experiências humanas, mas o transtorno bipolar não se define apenas por ter dias bons e ruins.

O diagnóstico exige uma avaliação clínica cuidadosa, feita ao longo do tempo e considerando a história de vida, a intensidade dos episódios, seus impactos e outras possíveis explicações para o sofrimento. Receber ou investigar esse diagnóstico não deveria apagar a singularidade de ninguém. Pode, porém, ajudar a organizar um tratamento mais seguro e coerente quando há episódios importantes de depressão, mania ou hipomania.

O que caracteriza o transtorno bipolar

O transtorno bipolar é uma condição de saúde mental marcada por alterações episódicas de humor, energia, atividade e funcionamento. Essas alterações vão além das reações esperadas diante dos acontecimentos cotidianos e podem comprometer relações afetivas, trabalho, finanças, sono, sexualidade e cuidado consigo.

Na mania, a pessoa pode apresentar humor muito elevado, expansivo ou irritável, aumento acentuado de energia, redução da necessidade de dormir, fala acelerada e dificuldade de interromper pensamentos ou atividades. Também podem ocorrer impulsividade, decisões arriscadas, sensação de grandiosidade e perda de crítica sobre o próprio estado. Em quadros mais graves, podem surgir sintomas psicóticos, como delírios ou alucinações.

Na hipomania, os sinais podem ser semelhantes, mas aparecem em menor intensidade e, em geral, sem prejuízo tão grave ou necessidade de internação. Isso não significa que seja irrelevante. Muitas pessoas não reconhecem a hipomania como um problema, especialmente quando ela parece uma fase de maior produtividade, sociabilidade ou criatividade. As consequências podem aparecer depois, em exaustão, conflitos, dívidas ou uma queda depressiva importante.

Já os episódios depressivos podem envolver tristeza persistente, vazio, desesperança, isolamento, perda de interesse, lentificação, culpa intensa, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração e pensamentos de morte. Nem toda depressão faz parte de um transtorno bipolar. A diferença é importante porque o manejo clínico e medicamentoso pode mudar.

Diagnóstico do transtorno bipolar: o que a avaliação considera

Não existe um exame de sangue, uma imagem do cérebro ou um teste breve que confirme sozinho o transtorno bipolar. A avaliação é feita a partir da conversa clínica, da observação e do acompanhamento ao longo do tempo. Quando necessário, psicólogo e psiquiatra podem trabalhar de forma articulada, respeitando seus campos de atuação e construindo um plano de tratamento em conjunto.

O profissional costuma investigar quando os sintomas começaram, quanto tempo duraram, o que mudou concretamente na rotina e se houve períodos de depressão, mania, hipomania ou características mistas. Essas características merecem atenção: uma pessoa pode estar muito agitada, irritada e sem dormir e, ao mesmo tempo, sentir desespero, vazio ou ideias suicidas.

Também importa saber se familiares tiveram transtorno bipolar já que a bipolaridade tem forte herdabilidade genética, depressão grave, suicídio, uso problemático de substâncias ou internações psiquiátricas. O histórico familiar, por si só, não determina que alguém terá o transtorno, mas pode ser uma informação clínica relevante.

Um diário de humor, sono, uso de álcool e outras drogas, gastos e acontecimentos significativos pode ajudar a perceber padrões. Ele não substitui uma consulta, mas oferece informações mais precisas do que tentar reconstruir meses de experiência apenas pela memória, especialmente quando os episódios ocorreram há algum tempo.

Perguntas que ajudam a diferenciar episódios

Durante a avaliação, pode ser útil refletir sobre perguntas como: houve momentos em que você dormiu muito menos sem sentir cansaço? Pessoas próximas notaram uma mudança marcante no seu jeito de falar, agir ou se relacionar? Em algum período, você tomou decisões financeiras, sexuais ou profissionais muito diferentes do habitual? Depois, houve arrependimento, prejuízos ou dificuldade para entender o que aconteceu?

Essas perguntas não funcionam como um teste de internet. Elas ajudam a compreender duração, intensidade, contexto e consequências. Uma mudança de humor após um luto, uma separação, violência, discriminação ou sobrecarga extrema pode exigir cuidado clínico sem ser, por si só, evidência de bipolaridade.

Por que o diagnóstico pode ser confundido com outros quadros

Muitas vezes, a possibilidade de bipolaridade começa a ser investigada quando a pessoa procura ajuda por depressão. Episódios de hipomania podem ter passado despercebidos, sido valorizados como uma fase de alto rendimento ou confundidos com um traço de personalidade. Por isso, uma avaliação apressada pode deixar elementos importantes de fora.

Ansiedade intensa, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, traumas, transtornos de personalidade, alterações da tireoide e uso de substâncias podem produzir ou agravar sintomas parecidos. Álcool, cocaína, anfetaminas, estimulantes, hormônios e outras drogas podem modificar sono, energia, desinibição e humor. Em contextos de chemsex, por exemplo, é especialmente importante avaliar a relação entre substâncias, privação de sono, sexualidade, culpa, vulnerabilidade e sintomas psíquicos, sem moralismo.

Pessoas LGBTQIA+ também podem viver sofrimento ligado a rejeição familiar, violência, discriminação, medo, solidão ou necessidade constante de se proteger. Nada disso é sinal de transtorno bipolar, e identidade de gênero ou orientação sexual jamais deve ser tratada como patologia. Ao mesmo tempo, experiências de estresse intenso podem coexistir com um transtorno do humor e precisam ser consideradas na avaliação.

O papel da psicoterapia e da psiquiatria

Quando há suspeita de transtorno bipolar, a psicoterapia oferece um espaço para compreender como os episódios atravessam a história, os vínculos e a imagem que a pessoa tem de si. Não se trata de transformar cada emoção em sintoma, nem de reduzir a vida a uma categoria diagnóstica. Trata-se de reconhecer sinais precoces, elaborar consequências e criar condições mais consistentes de cuidado.

Uma psicoterapia pode ajudar a perceber mudanças no ritmo do sono, na irritabilidade, na aceleração dos pensamentos, no isolamento e nas decisões impulsivas. Também pode abrir espaço para conversas difíceis sobre uso de substâncias, sexualidade, relações afetivas, perdas, vergonha e medo de recaídas. Para algumas pessoas, incluir familiares ou pessoas de confiança em combinações para momentos de crise, com consentimento, faz diferença.

A avaliação psiquiátrica é particularmente importante diante de episódios de mania, depressão intensa, sintomas psicóticos, risco de suicídio, automutilação, uso problemático de substâncias ou prejuízo relevante no funcionamento. Medicamentos podem fazer parte do tratamento e devem ser avaliados, prescritos e acompanhados por um médico. Interrompê-los por conta própria, inclusive quando há uma melhora, pode aumentar o risco de novos episódios.

O tratamento não precisa ser igual para todas as pessoas. Há quem precise de maior frequência de acompanhamento em uma fase de crise; há quem se beneficie de uma rotina de sono mais protegida e de estratégias para diminuir estímulos; há quem necessite de suporte para reconstruir relações depois de um episódio. O plano precisa considerar a gravidade do quadro, os recursos disponíveis, a rede de apoio e as necessidades da própria pessoa.

Quando procurar ajuda imediata

Algumas situações não devem esperar uma consulta de rotina. Procure atendimento de urgência, um pronto-socorro ou acione o SAMU pelo 192 se houver risco de suicídio, tentativa de autoagressão, vários dias sem dormir com aceleração intensa, confusão, delírios, alucinações, comportamento muito arriscado ou quando a pessoa não conseguir manter-se em segurança.

Se surgirem pensamentos de morte, falar com alguém de confiança e não permanecer sozinho pode ser uma medida imediata de proteção. O Centro de Valorização da Vida atende pelo 188. Em uma crise, a prioridade é reduzir o risco e garantir cuidado e avaliação profissional, não tentar resolver sozinho todas as causas do sofrimento.

Buscar uma avaliação para bipolaridade não obriga ninguém a aceitar um rótulo nem a contar sua vida de uma vez. É uma possibilidade de entender melhor o que está acontecendo, com tempo, critério e respeito domínio da escolha.


Atendo adultos presencialmente em São Paulo, na região de Cerqueira César, próximo à Avenida Paulista. Para quem está em outra cidade ou prefere esse formato, também realizo psicoterapia online para transtorno bipolar


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