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Freud e a homossexualidade: como o pai da psicanálise compreendia o desejo entre pessoas do mesmo sexo?

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 2 horas
9 min de leitura

Em 1935, uma mãe norte-americana escreveu a Sigmund Freud preocupada com a homossexualidade de seu filho. Queria saber se a psicanálise poderia ajudá-lo. A resposta do criador da psicanálise tornou-se um importante documento histórico sobre a relação entre sexualidade, sofrimento psíquico e preconceito.


Freud afirmou que a homossexualidade não deveria ser considerada uma doença, um vício ou motivo de vergonha. Também condenou sua perseguição como crime. Essa posição pode parecer evidente para muitas pessoas atualmente, mas foi formulada em um período no qual a homossexualidade era frequentemente tratada pela medicina e pela psiquiatria como sinal de degeneração, desvio moral ou anormalidade.


A relação entre Freud e a homossexualidade, contudo, é mais complexa do que essa carta permite compreender isoladamente. Ao longo de sua obra, Freud questionou concepções tradicionais sobre a sexualidade humana, mas também formulou hipóteses sobre o desenvolvimento homossexual que carregavam pressupostos de sua época.


Compreender esse percurso é importante não apenas para conhecer a história da psicanálise, mas também para discutir uma questão que permanece atual: qual deve ser o lugar da orientação sexual na escuta clínica?


Psicólogo analisa como Freud compreendeu a homossexualidade no percurso da psicanálise

O que Freud pensava sobre a homossexualidade?


Para compreender o pensamento freudiano, precisamos considerar o contexto histórico no qual a psicanálise surgiu. No final do século XIX e início do século XX, a sexualidade era frequentemente compreendida a partir de modelos médicos e morais que estabeleciam a heterossexualidade reprodutiva como referência de normalidade.


Práticas sexuais que não correspondiam a esse modelo eram classificadas como desvios, perversões ou manifestações de degeneração. Freud começou a questionar algumas dessas concepções ao investigar a sexualidade humana para além de sua função reprodutiva.


Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, publicado originalmente em 1905, ele propôs uma compreensão da sexualidade que não se restringia à genitalidade adulta nem à reprodução. Uma de suas contribuições foi distinguir o objeto sexual, isto é, a pessoa para quem se dirige o desejo, da finalidade da pulsão sexual.


Essa distinção permitiu questionar a ideia de que a atração por pessoas do sexo oposto seria a única possibilidade natural e legítima da sexualidade humana. Freud também criticou a associação automática entre homossexualidade e degeneração nervosa. Isso não significa que tenha abandonado completamente os pressupostos normativos de seu tempo. Em seus textos, utilizou a expressão inversão sexual, comum na literatura médica da época, e procurou formular hipóteses sobre a origem e o desenvolvimento da homossexualidade.


Algumas dessas explicações são atualmente consideradas limitadas ou incompatíveis com o conhecimento científico contemporâneo. O aspecto historicamente relevante é que Freud introduziu uma compreensão da sexualidade mais complexa do que aquela sustentada por modelos estritamente biológicos, reprodutivos ou moralizantes.


Freud e a homossexualidade nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade


Em 1905, Freud apresentou uma concepção da sexualidade que se tornaria fundamental para a psicanálise: a sexualidade humana não surge pronta na puberdade, mas possui uma história que começa na infância.


Sua teoria da sexualidade infantil questionava a ideia de que a criança seria desprovida de manifestações sexuais e de que a sexualidade adulta corresponderia simplesmente ao desenvolvimento de uma função biológica. Para Freud, a sexualidade humana envolve pulsões, fantasias, experiências corporais, identificações e relações afetivas que participam da constituição do sujeito.


Nesse contexto, a escolha de objeto amoroso não poderia ser explicada exclusivamente pela anatomia.


O conceito de bissexualidade psíquica também ocupou um lugar importante em suas formulações. É necessário esclarecer que essa noção não corresponde diretamente à identidade bissexual como a compreendemos atualmente.


Na teoria freudiana, tratava-se de uma hipótese sobre disposições e identificações presentes na constituição psíquica, formulada a partir dos conhecimentos e das categorias sexuais de sua época. Freud procurou compreender por que o desejo poderia se dirigir a diferentes objetos amorosos e questionou a ideia de uma correspondência simples e necessária entre sexo anatômico e escolha amorosa.


Ao mesmo tempo, algumas de suas hipóteses continuaram organizadas em torno de concepções de desenvolvimento sexual que privilegiavam determinados desfechos.

Por isso, uma leitura contemporânea de Freud exige reconhecer tanto a originalidade de suas contribuições quanto os limites históricos de suas formulações.


A carta de Freud de 1935: a homossexualidade não é uma doença


Em 9 de abril de 1935, Freud respondeu a uma mãe que havia solicitado orientação sobre a homossexualidade de seu filho. A carta é particularmente interessante porque Freud começa chamando a atenção para o fato de a mulher evitar utilizar a palavra homossexualidade.


Em vez de aceitar imediatamente a preocupação apresentada, ele questiona a dificuldade de nomear a orientação sexual do filho. Em seguida, afirma que a homossexualidade não deveria ser considerada motivo de vergonha, vício, degradação ou doença.


Freud também menciona figuras históricas que tiveram relações ou desejos homossexuais e condena a perseguição dessas pessoas. Sua resposta, contudo, não estava inteiramente livre de concepções desenvolvimentistas hoje ultrapassadas. Na mesma carta, ele descreveu a homossexualidade como uma variação da função sexual associada a uma interrupção do desenvolvimento.


Essa formulação mostra por que não devemos transformar Freud em um representante antecipado de todas as concepções contemporâneas sobre diversidade sexual. O pensamento freudiano apresenta tensões e contradições que precisam ser consideradas. Ainda assim, há um aspecto especialmente significativo na carta: Freud não assume que a homossexualidade do filho seja, por si só, a causa de seu sofrimento ou algo que deva ser eliminado.


Ao responder sobre as possibilidades da análise, ele desloca a discussão para as dificuldades emocionais, os conflitos e as inibições que aquela pessoa poderia experimentar.


Esse deslocamento permanece relevante para a prática clínica contemporânea.

Uma pessoa homossexual pode procurar psicoterapia por depressão, ansiedade, conflitos familiares, dificuldades nos relacionamentos, questões de autoestima ou inúmeras outras razões, assim como qualquer pessoa heterossexual.


Sua orientação sexual não constitui, por si mesma, uma condição patológica.


Freud defendia a cura da homossexualidade?


Essa pergunta exige uma resposta cuidadosa.


Freud não defendia que a homossexualidade fosse uma doença que precisasse ser curada. Na carta de 1935, rejeitou expressamente sua classificação como enfermidade.

Entretanto, também não seria historicamente correto afirmar que ele descartava toda possibilidade de mudança na direção do desejo sexual.


Na mesma correspondência, Freud reconheceu que a psicanálise não poderia prometer a substituição da homossexualidade pela heterossexualidade, embora admitisse que determinadas mudanças poderiam ocorrer em alguns casos.


Essa posição precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de sua teoria, sem confundi-la com uma autorização contemporânea para práticas de conversão sexual.

Atualmente, a homossexualidade não é considerada um transtorno mental, e intervenções que pretendem modificar a orientação sexual de uma pessoa não constituem um objetivo terapêutico legítimo.


A questão fundamental é distinguir a possibilidade de uma pessoa investigar sua sexualidade, seus desejos e seus conflitos da tentativa de conduzi-la a uma orientação sexual previamente considerada superior ou mais adequada.


A psicoterapia não deve estabelecer a heterossexualidade como resultado esperado de um tratamento.


Se Freud não considerava a homossexualidade uma doença, por que a psicanálise continuou patologizando pessoas gays?


A história da psicanálise não pode ser reduzida ao pensamento de seu fundador.

Após Freud, diferentes autores e escolas desenvolveram teorias próprias sobre a sexualidade, a constituição psíquica e as relações amorosas.


Algumas dessas formulações interpretaram a homossexualidade como expressão de conflitos do desenvolvimento, dificuldades nas identificações ou formas consideradas imaturas de organização psíquica.


Durante décadas, concepções desse tipo contribuíram para que pessoas homossexuais fossem avaliadas a partir de pressupostos heteronormativos, inclusive em determinados espaços de formação e atendimento psicanalítico.


Esse percurso evidencia uma contradição importante.


Uma teoria que contribuiu para questionar a moral sexual de sua época também foi utilizada, posteriormente, para sustentar interpretações patologizantes da diversidade sexual. Reconhecer essa história não significa abandonar as contribuições da psicanálise, mas submetê-las à reflexão crítica.


Uma prática clínica comprometida com a singularidade não pode transformar uma teoria sobre a sexualidade em um modelo obrigatório de existência. Também não pode presumir que a orientação sexual explique, antecipadamente, os conflitos de uma pessoa.


O que a psicanálise pode oferecer às pessoas LGBT+ atualmente?


A psicanálise oferece recursos para investigar a maneira singular como cada pessoa constrói sua relação com o desejo, com o corpo, com o amor e com o reconhecimento dos outros.


Essas questões não são exclusivas das pessoas LGBT+. Todos os sujeitos possuem histórias marcadas por identificações, expectativas familiares, experiências de pertencimento e conflitos afetivos.


O que muda são as circunstâncias e os significados que essas experiências adquirem em cada trajetória. Para uma pessoa gay, por exemplo, o sofrimento pode estar relacionado à dificuldade de demonstrar afeto publicamente, ao medo da rejeição familiar ou à vergonha que persiste mesmo depois da autoaceitação.


Essas experiências podem ser aprofundadas no artigo Vergonha de ser gay: por que ela persiste mesmo após a autoaceitação?


Em outras situações, a demanda por psicoterapia pode estar relacionada a um término amoroso, dificuldades no trabalho, luto, depressão ou conflitos que não possuem relação direta com a orientação sexual. O desafio clínico é não reduzir a pessoa à sua identidade, mas também não ignorar as condições sociais e históricas que atravessam sua experiência.


Pesquisas sobre estresse de minorias mostram que a discriminação, a expectativa de rejeição e a internalização do estigma podem contribuir para o sofrimento psicológico de pessoas LGBT+.


Essas contribuições permitem articular a escuta psicanalítica com conhecimentos contemporâneos sobre saúde mental, sem transformar experiências sociais compartilhadas em explicações universais sobre cada sujeito.


Para quem busca acompanhamento psicológico, a psicoterapia LGBT+ online pode contemplar questões relacionadas à sexualidade, à identidade, aos relacionamentos e a outras dimensões da vida emocional, respeitando a singularidade de cada experiência.


A homossexualidade não precisa ser explicada para que o sofrimento seja escutado


Durante muito tempo, uma parcela importante das discussões médicas e psicológicas sobre a homossexualidade esteve concentrada em explicar suas supostas causas. Por que alguém se torna homossexual? Qual seria a influência dos pais? Que experiências da infância determinariam a escolha amorosa?


Essas perguntas frequentemente partiam de uma suposição pouco questionada: a de que a heterossexualidade seria uma condição natural que dispensaria explicações, enquanto a homossexualidade precisaria ter sua origem investigada.


A própria teoria freudiana contribuiu para questionar a simplicidade dessa distinção, embora não tenha conseguido se afastar completamente dos referenciais de seu tempo. Na clínica contemporânea, a questão não precisa ser descobrir por que uma pessoa é gay, lésbica ou bissexual.


O trabalho pode se concentrar na maneira como ela vive seus desejos, constrói relacionamentos, enfrenta conflitos e atribui significados às experiências que atravessam sua história.


Um homem gay que sofre com a solidão não precisa ter sua orientação sexual explicada antes que sua dificuldade de estabelecer vínculos seja escutada. Uma mulher lésbica que enfrenta conflitos familiares não precisa justificar seu desejo para que sua dor seja reconhecida.


Da mesma forma, uma pessoa LGBT+ que procura psicoterapia por depressão, ansiedade ou dificuldades profissionais não deve ter todo o seu sofrimento automaticamente atribuído à sexualidade. A orientação sexual participa da história de uma pessoa, mas não determina a totalidade de sua vida psíquica.


Perguntas frequentes sobre Freud e a homossexualidade


Freud considerava a homossexualidade uma doença?

Não. Em uma carta escrita em 1935, Freud afirmou expressamente que a homossexualidade não deveria ser classificada como doença. Contudo, algumas de suas explicações sobre o desenvolvimento sexual continham pressupostos que hoje são considerados ultrapassados.


Freud acreditava que a homossexualidade poderia ser curada?

Freud não classificava a homossexualidade como uma doença a ser curada. Em 1935, afirmou que a psicanálise não poderia prometer sua substituição pela heterossexualidade, embora ainda admitisse a possibilidade de mudanças na orientação do desejo em alguns casos. Essa posição histórica não fundamenta práticas contemporâneas de conversão sexual.


O que Freud escreveu sobre a homossexualidade?

Freud discutiu a homossexualidade em diferentes momentos de sua obra, especialmente em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), em Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina (1920) e na carta de 1935 a uma mãe norte-americana.


A psicanálise considera a homossexualidade uma perversão?

Não existe uma posição única entre todas as escolas psicanalíticas. Historicamente, o termo perversão teve significados técnicos distintos do uso moral cotidiano. A orientação homossexual, por si só, não constitui transtorno mental nem permite estabelecer uma estrutura clínica. A psicanálise contemporânea precisa ser compreendida considerando a diversidade de suas correntes e a crítica às formulações patologizantes.


Uma pessoa LGBT+ pode fazer psicanálise?

Sim. A psicanálise pode ser utilizada no acompanhamento de pessoas LGBT+, assim como de qualquer outra pessoa. O trabalho clínico deve respeitar a orientação sexual e a identidade de gênero, sem estabelecer sua modificação como objetivo terapêutico.


De Freud à clínica contemporânea: o que permanece importante?


A relação entre Freud e a homossexualidade revela tanto o potencial crítico da psicanálise quanto os limites históricos de suas formulações. Freud questionou a associação entre homossexualidade e degeneração, ampliou a compreensão da sexualidade humana e rejeitou sua classificação como doença.


Ao mesmo tempo, parte de suas explicações permaneceu vinculada a concepções de desenvolvimento sexual que não podem ser simplesmente reproduzidas na prática clínica atual.


Ler Freud hoje exige reconhecer essas duas dimensões.


A contribuição mais importante da psicanálise para a clínica com pessoas LGBT+ não está em oferecer uma explicação definitiva sobre a origem da homossexualidade. Está na possibilidade de escutar o sujeito para além das classificações, considerando seus desejos, conflitos, relações e experiências singulares.


A psicoterapia não precisa explicar ou modificar a orientação sexual de alguém para ajudá-lo a compreender seu sofrimento.


Para pessoas que desejam iniciar um processo de acompanhamento psicológico e estão em São Paulo, convido a conhecerem minhas páginas psicoterapia psicanalítica em São Paulo e também psicoterapia LGBT em São Paulo, além da modalidade online apresentada anteriormente.


Sobre o autor

Rodrigo Toledo Potechi | Psicólogo Clínico | CRP 06/001760-IS

Psicólogo clínico, pós-graduado em Saúde Mental, com atuação em psicoterapia de adultos, sexualidade, relacionamentos e saúde mental LGBT+.


Sua prática clínica tem como fundamento a psicanálise, considerando a singularidade das experiências subjetivas e os conflitos que atravessam os vínculos afetivos e a vida emocional.


Realiza atendimentos presenciais em São Paulo e psicoterapia online para pessoas no Brasil e no exterior.


Se questões relacionadas à sexualidade, aos relacionamentos ou à saúde mental têm produzido sofrimento, o acompanhamento psicológico pode ser uma oportunidade de investigá-las a partir da sua própria história.



Referências

  1. Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em Obras completas de Sigmund Freud.

  2. Freud, S. (1920). Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Em Obras completas de Sigmund Freud.

  3. Freud, S. (1935). Carta a uma mãe norte-americana, de 9 de abril de 1935. Documento preservado e divulgado pelo Freud Museum London. https://artsandculture.google.com/asset/letter-from-sigmund-freud-to-the-mother-of-a-homosexual-man-sigmund-freud/0QEgF5UcJfYCcw

  4. Flanders, S. (2016). On the subject of homosexuality: What Freud said. The International Journal of Psychoanalysis. https://doi.org/10.1111/1745-8315.12520

  5. Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674–697. https://doi.org/10.1037/0033-2909.129.5.674

 
 
 

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