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O que o vídeo de Felca sobre fobia social revela sobre a infância de pessoas LGBT+?

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 4 horas
10 min de leitura

Quando Felca contou que ouviu de uma colega de escola que ela sentia nojo dele, trouxe à tona uma experiência que ultrapassa sua história pessoal. Para muitas pessoas LGBT+, crescer também significou conviver com o desprezo, a humilhação e a sensação de que havia algo errado consigo mesmas.


Algumas dessas crianças sequer compreendiam sua orientação sexual ou identidade de gênero quando começaram a ser ridicularizadas. Bastava um jeito de falar, um movimento do corpo, uma amizade ou um comportamento que não correspondesse às expectativas dos outros.


Aos poucos, aquilo que vinha de fora podia encontrar lugar dentro delas. A vergonha deixava de estar apenas nas palavras dos colegas e passava a acompanhar a maneira como se percebiam, se relacionavam e ocupavam os espaços.


O relato de Felca permite refletir sobre como experiências de rejeição na infância podem continuar produzindo sofrimento muitos anos depois. E também sobre uma realidade que, para parte da população LGBT+, começa muito antes da vida adulta.


Psicólogo analisa o que o vídeo do Felca sobre fobia social pode nos dizer sobre bullying entre crianças LGBT+

O relato de Felca: quando o bullying continua existindo dentro de nós


Em vídeo publicado em 20 de outubro de 2026, o influenciador Felca compartilhou experiências dolorosas vividas durante a infância e a adolescência. Relatou episódios de bullying, agressões físicas, isolamento e humilhações que contribuíram, segundo sua própria narrativa, para o desenvolvimento de um quadro de fobia social, também conhecido como transtorno de ansiedade social.


Entre os episódios mencionados, um chama particularmente a atenção: ouvir de uma colega que ela sentia nojo dele. O sentimento de nojo, quando dirigido a outra pessoa, carrega uma dimensão especialmente violenta. Expressa repulsa, rejeição e, muitas vezes, a percepção de que o outro possui alguma característica que o torna indesejável.


Para uma criança ou adolescente, cuja identidade ainda está em formação, experiências dessa natureza podem adquirir significados profundos. A criança começa a se perguntar por que é rejeitada, o que existe nela que provoca aquela reação e o que poderia fazer para ser aceita.


Com o tempo, pode passar a acreditar que o problema está em sua própria existência.

Felca também relatou dificuldades importantes na vida adulta, incluindo o medo de situações sociais, o isolamento e o uso de álcool como tentativa de enfrentar circunstâncias que lhe provocavam intensa ansiedade.


Sua experiência merece ser compreendida em sua singularidade, sem comparações que diminuam a gravidade do sofrimento vivido. Ao mesmo tempo, ela abre espaço para uma reflexão necessária sobre crianças e adolescentes LGBT+ que enfrentam formas semelhantes de violência, frequentemente associadas à maneira como expressam sua identidade ou são percebidos pelos outros.


Crianças LGBT+: julgadas antes mesmo de compreenderem quem são


Uma das particularidades do bullying direcionado a crianças LGBT+ está no fato de que a violência pode começar muito antes de elas compreenderem a própria sexualidade ou identidade de gênero.


Um menino de seis ou sete anos pode ser chamado de gay porque prefere brincar com meninas, porque possui gestos considerados delicados ou porque não demonstra interesse por futebol. Uma menina pode ser ridicularizada por gostar de atividades culturalmente associadas aos meninos, por não corresponder às expectativas de feminilidade ou simplesmente por apresentar comportamentos que incomodam os adultos.


Essas características, isoladamente, não determinam a orientação sexual ou a identidade de gênero de ninguém. Ainda assim, podem ser suficientes para que uma criança seja identificada como diferente e passe a sofrer hostilidade. Ela pode não saber o significado das palavras utilizadas para ofendê-la, mas compreende perfeitamente o desprezo que acompanha essas palavras. Percebe os risos, os olhares, a exclusão das brincadeiras e a mudança no comportamento das pessoas quando se aproxima. Muitas vezes, começa a modificar espontaneamente a maneira de falar, andar, brincar ou demonstrar afeto.


Aprende a observar o ambiente antes de se expressar. Aprende que determinados comportamentos provocam rejeição e que esconder algumas características pode representar uma forma de proteção.


É uma experiência particularmente dolorosa porque acontece justamente no período em que a criança deveria encontrar condições para explorar sua personalidade, desenvolver vínculos e construir uma percepção segura de si mesma. Em muitos casos, sua primeira experiência de inadequação acontece antes mesmo de existir uma compreensão sobre aquilo que os outros estão condenando.


Quando o preconceito confronta a existência da criança


Existe uma dimensão adicional da violência vivida por muitas crianças LGBT+: a rejeição pode ultrapassar o ambiente escolar e alcançar espaços que deveriam oferecer proteção, como a família e a comunidade religiosa.


Uma criança pode ouvir na escola que é nojenta, escutar em casa que determinados comportamentos são vergonhosos e aprender, em ambientes religiosos, que pessoas homossexuais estão condenadas ao inferno.


Essas mensagens podem ser recebidas antes mesmo de ela reconhecer em si qualquer identidade LGBT+.


Imagine uma criança que cresce ouvindo que homens que se relacionam com homens são pecadores, que determinadas formas de amar representam uma ameaça à família ou que pessoas LGBT+ precisam mudar para serem aceitas por Deus.


Anos depois, ao começar a reconhecer seus próprios desejos e afetos, ela poderá se deparar com um conflito profundo. De um lado, aquilo que sente e começa a descobrir sobre si mesma. De outro, os valores, as expectativas e as condenações que aprendeu a considerar verdadeiros.


Duas dimensões fundamentais de sua existência entram em confronto: a necessidade de pertencer e a possibilidade de ser quem é. Para algumas pessoas, reconhecer a própria sexualidade significa também enfrentar o medo de perder o amor dos pais, a aceitação da família, os amigos, a comunidade religiosa e até a relação com a própria espiritualidade.


A religião pode ser uma importante fonte de acolhimento, pertencimento e proteção emocional. O sofrimento surge especialmente quando determinadas interpretações religiosas são utilizadas para produzir vergonha, medo e condenação.


Nessas circunstâncias, o preconceito pode deixar marcas mesmo quando não existe uma agressão física ou uma ofensa diretamente dirigida à criança.


Basta que ela cresça aprendendo que pessoas como ela são consideradas erradas.


A vergonha que vem de fora e passa a fazer parte de nós


Na clínica psicológica, é possível observar como experiências repetidas de rejeição podem participar da construção de uma autoimagem marcada pela vergonha e pela inadequação. Uma criança constantemente ridicularizada pode começar a interpretar suas características pessoais como defeitos.


Aquilo que inicialmente era uma opinião hostil de outras pessoas passa a influenciar a maneira como ela se enxerga. O menino que escutou repetidamente que era afeminado pode crescer tentando controlar seus gestos e sua voz. A menina que aprendeu que seus afetos eram vergonhosos pode chegar à vida adulta com dificuldades de reconhecer e expressar seus desejos.


A pessoa que ouviu durante anos que sua sexualidade era moralmente condenável pode experimentar culpa mesmo em relações afetivas consensuais, saudáveis e satisfatórias.


Na psicanálise, podemos compreender parte dessas experiências considerando como as relações com figuras importantes e os discursos recebidos ao longo do desenvolvimento participam da constituição da imagem que construímos de nós mesmos. A maneira como somos vistos, nomeados e tratados pelos outros influencia nossa relação com o próprio corpo, nossos desejos e nossa autoestima.


Isso não significa que toda pessoa LGBT+ desenvolverá dificuldades emocionais ou que a infância determinará inevitavelmente sua vida adulta. Significa reconhecer que experiências persistentes de humilhação e rejeição podem produzir consequências que merecem atenção clínica.


Sugestão de leitura relacionada: Psicólogo Gay: Quando Procurar e Como Escolher.


O que a ciência explica sobre o estresse de minorias?


A psicologia possui um conceito importante para compreender parte dessas experiências: o estresse de minorias.


Desenvolvido pelo pesquisador Ilan Meyer, esse modelo explica como pessoas pertencentes a grupos socialmente estigmatizados podem enfrentar fontes adicionais e persistentes de estresse relacionadas ao preconceito, à discriminação e à expectativa de rejeição.


Para pessoas LGBT+, essas experiências podem envolver agressões, exclusão, necessidade de esconder a própria identidade e medo constante de sofrer novas situações de humilhação.


Um aspecto importante é que o sofrimento não depende exclusivamente da ocorrência de uma agressão. A expectativa de que algo ruim possa acontecer também pode produzir ansiedade e comportamentos de vigilância. Uma pessoa que foi ridicularizada durante anos por sua maneira de falar pode continuar monitorando a própria voz em ambientes desconhecidos.


Alguém que cresceu ouvindo comentários depreciativos sobre homossexualidade pode evitar demonstrar afeto pelo parceiro em público, mesmo quando não existe uma ameaça imediata. Essa necessidade contínua de avaliar o ambiente pode se tornar emocionalmente desgastante.


O modelo de Meyer também ajuda a compreender o preconceito internalizado, situação em que mensagens negativas recebidas socialmente passam a influenciar a maneira como a própria pessoa percebe sua identidade.


Uma pesquisa brasileira baseada em dados de mais de 100 mil estudantes encontrou associação entre bullying relacionado à orientação sexual e sentimentos de solidão.

Outra revisão sistemática, reunindo estudos com jovens LGBT+, identificou maior exposição a experiências adversas na infância e associação dessas vivências com problemas de saúde mental.


Esses resultados reforçam a importância de compreender o sofrimento psicológico considerando também o contexto social em que ele se desenvolve.



Fobia social, medo da rejeição e as consequências na vida adulta


O transtorno de ansiedade social, conhecido como fobia social, envolve medo intenso e persistente de situações nas quais a pessoa acredita que poderá ser observada, avaliada, humilhada ou rejeitada.


Esse medo pode provocar sintomas físicos, como taquicardia, tremores, sudorese e desconforto gastrointestinal, além de comportamentos de evitação que prejudicam a vida social, profissional e afetiva.


Nem toda pessoa que sofreu bullying desenvolverá fobia social. Da mesma forma, nem toda dificuldade de socialização corresponde a um transtorno psicológico. Entretanto, experiências de humilhação, exclusão e rejeição podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de dificuldades relacionadas à exposição social.


Na população LGBT+, essas dificuldades podem adquirir características particulares.

Uma pessoa pode evitar determinados ambientes por medo de sofrer discriminação. Outra pode apresentar dificuldades de estabelecer vínculos afetivos porque cresceu acreditando que não seria desejada ou aceita.


Há também aqueles que desenvolvem uma necessidade intensa de aprovação, buscando constantemente sinais de que são suficientemente interessantes, atraentes ou merecedores de afeto.


Em algumas situações, o medo da rejeição pode influenciar escolhas amorosas, a expressão da sexualidade e a capacidade de estabelecer limites nos relacionamentos.


O uso de álcool e outras substâncias também pode surgir como tentativa de reduzir a ansiedade, a vergonha ou o desconforto em situações sociais, embora essa estratégia possa produzir novos problemas e agravar o sofrimento.


Essas manifestações possuem histórias e significados diferentes para cada pessoa. Compreendê-las exige escuta, investigação e cuidado para não reduzir experiências complexas a explicações únicas.


Sugestões de leitura relacionada: Depressão em pessoas LGBT+ 


O que acontece quando ninguém protege essa criança?


Um dos aspectos mais dolorosos do bullying está na sensação de desamparo.


A criança pode sofrer agressões diante de colegas, professores e outros adultos sem encontrar alguém que interrompa a violência ou reconheça seu sofrimento. Em situações envolvendo preconceito contra pessoas LGBT+, esse desamparo pode ser ainda mais complexo.


Há crianças que não procuram ajuda porque acreditam que seus pais concordariam com as ofensas. Outras temem que contar o que acontece na escola provoque questionamentos sobre sua sexualidade.


Algumas sequer conseguem explicar por que estão sendo perseguidas.


Quando os adultos interpretam essas situações como brincadeiras, exageros ou conflitos normais da infância, podem reforçar a percepção de que a criança precisa enfrentar tudo sozinha.


A ausência de proteção também comunica uma mensagem.


Ela pode fazer com que a criança conclua que seu sofrimento não merece atenção, que não existe lugar seguro para expressar seus sentimentos ou que pedir ajuda representa um risco adicional.


Por isso, o enfrentamento do bullying exige uma responsabilidade compartilhada entre família, escola e comunidade. Não basta orientar a criança agredida a ser forte ou aprender a se defender. É necessário interromper a violência, responsabilizar os agressores de maneira educativa e construir ambientes nos quais diferenças não sejam utilizadas como justificativa para humilhações.


O acolhimento de crianças e adolescentes LGBT+ não exige antecipar definições sobre sua sexualidade ou identidade de gênero. Exige reconhecer seu direito de crescer sem medo, vergonha ou condenação.


É possível reconstruir a relação consigo mesmo?


O relato de Felca também traz uma dimensão importante: a possibilidade de reconhecer o sofrimento e buscar novas formas de se relacionar com a própria história.

Experiências dolorosas da infância podem continuar influenciando a vida adulta, mas não precisam determinar permanentemente a maneira como uma pessoa se percebe.


Na psicoterapia, é possível investigar como determinadas experiências participaram da construção da autoestima, das expectativas de rejeição e das dificuldades de estabelecer vínculos. Para muitas pessoas LGBT+, esse processo envolve revisitar sentimentos de culpa, vergonha e inadequação que foram construídos em ambientes marcados pelo preconceito.


Pode envolver também a compreensão de que determinadas características pessoais, antes percebidas como defeitos, foram rejeitadas por expectativas sociais rígidas sobre gênero e sexualidade.


O trabalho psicológico oferece condições para elaborar essas experiências, reconhecer padrões que continuam produzindo sofrimento e construir relações mais livres com o próprio desejo e a própria identidade.


Em casos de fobia social, intervenções psicológicas baseadas em evidências, especialmente a terapia cognitivo-comportamental com estratégias de exposição gradual e planejada, podem contribuir significativamente para a redução dos sintomas.

O processo terapêutico deve considerar a singularidade de cada pessoa, sua história e as condições concretas de segurança dos ambientes que frequenta.



O que podemos aprender com o relato de Felca?


Ao compartilhar publicamente suas experiências, Felca contribui para uma discussão necessária sobre os efeitos do bullying e as consequências que a humilhação pode produzir ao longo da vida.


Sua história possui características próprias e merece ser acolhida sem comparações ou tentativas de estabelecer hierarquias de sofrimento. Ao mesmo tempo, ela permite reconhecer experiências que fazem parte da trajetória de muitas pessoas LGBT+.


Crianças que foram ridicularizadas por seus gestos, condenadas por comportamentos que sequer compreendiam, ensinadas a sentir vergonha dos próprios afetos e obrigadas a esconder características pessoais para conseguir algum pertencimento.


Algumas encontraram acolhimento e conseguiram elaborar essas experiências. Outras chegaram à vida adulta carregando medos, inseguranças e conflitos que ainda interferem em seus relacionamentos.


Há algo especialmente cruel em uma criança ser condenada por aquilo que os adultos imaginam que ela seja, antes mesmo de ter a oportunidade de descobrir quem é.


O relato de Felca nos convida a olhar para as consequências da violência que acontece nas escolas. Mas também para aquilo que ensinamos às crianças dentro de casa, nos espaços religiosos e nas relações cotidianas. Porque nenhuma criança deveria precisar aprender a sentir vergonha de si mesma para conseguir ser aceita.


E nenhuma pessoa deveria chegar à vida adulta precisando reconstruir, sozinha, a dignidade que lhe foi negada durante a infância.


Sobre o autor


Rodrigo Toledo Potechi é psicólogo clínico (CRP 06/001760-IS), pós-graduado em Saúde Mental pela Santa Casa de São Paulo, com formação continuada em psicanálise pelo Instituto de Psicanálise da Bahia.


Atua no atendimento psicológico de adultos, com experiência em questões relacionadas à sexualidade, relacionamentos, sofrimento emocional e saúde mental, inclusive da população LGBT+.


Realiza atendimentos presenciais em São Paulo e psicoterapia online para pessoas em todo o Brasil e brasileiros residentes no exterior.


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Referências científicas

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674–697. https://doi.org/10.1037/0033-2909.129.5.674

Effects of sexual orientation-based bullying on feelings of loneliness and sleeping difficulty among Brazilian middle school students. Jornal de Pediatria, 2021. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002175572030139X

A systematic review and meta-analysis investigating the impact of childhood adversities on the mental health of LGBT+ youth. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10242973/

Aliança Nacional LGBTI+. Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro (2024). https://aliancalgbti.org.br/relatorio-pesquisa-nacional-sobre-o-bullying/

The Trevor Project. Religiosity and Suicidality Among LGBTQ Youth. https://www.thetrevorproject.org/research-briefs/religiosity-and-suicidality-among-lgbtq-youth/

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