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Dependência química é falta de caráter? Entre a culpa, a compulsão e o sofrimento psíquico

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 10 horas
9 min de leitura

Por que ainda responsabilizamos moralmente pessoas que enfrentam a dependência de drogas, álcool e outros comportamentos compulsivos?


Uma pessoa recebe o diagnóstico de depressão e, geralmente, encontra alguma compreensão. Outra enfrenta um transtorno bipolar e, embora ainda exista preconceito, reconhecemos que há uma condição de saúde mental que exige acompanhamento.


Mas quando alguém desenvolve dependência química, a reação frequentemente muda.


“Usou porque quis.”


“Sabia onde estava se metendo.”


“Não tem vergonha na cara.”


“Se quisesse mesmo, parava.”


Durante minha formação em Saúde Mental, ouvi de um professor uma observação que permaneceu comigo: a dependência química talvez seja uma das condições psiquiátricas em que o paciente mais frequentemente é tratado como culpado pelo próprio adoecimento.


A frase não significa que outros transtornos estejam livres de preconceitos. Significa que, diante da dependência, ainda temos enorme dificuldade de separar sofrimento psíquico, comportamento e julgamento moral.


E essa dificuldade não aparece apenas nas famílias ou na sociedade. Ela também pode atravessar os próprios espaços de cuidado.


Psicólogo Rodrigo Toledo em atendimento clínico em São Paulo
Psicólogo Rodrigo Toledo em atendimento clínico em São Paulo

Dependência química não é sinônimo de fraqueza ou falta de caráter


A dependência química é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.


Não existe uma única explicação para o desenvolvimento de um transtorno por uso de substâncias.


Algumas pessoas começam a consumir por curiosidade, prazer ou socialização. Outras procuram aliviar ansiedade, solidão, sofrimento emocional ou experiências difíceis. Há também quem encontre nas substâncias uma maneira de se sentir mais confiante, desinibido ou pertencente a determinado grupo.


Essas motivações podem coexistir e mudar ao longo do tempo.


O que inicialmente parecia uma experiência ocasional pode assumir uma função cada vez mais importante na vida de alguém.


Em determinadas situações, o consumo passa a acontecer apesar de prejuízos conhecidos, tentativas de interrupção e consequências que a própria pessoa gostaria de evitar.


É nesse ponto que a ideia de uma escolha inteiramente livre e racional se mostra insuficiente para compreender o problema.


Isso não significa que toda pessoa que usa drogas desenvolverá dependência.


Tampouco significa que todo consumo seja necessariamente compulsivo.


Significa que precisamos avaliar a relação construída com a substância, seus efeitos e o lugar que ela passou a ocupar na vida do sujeito.


Se a pessoa sabe que está se prejudicando, por que continua usando?


Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis para familiares e para quem enfrenta uma dependência.


A pessoa reconhece que está perdendo dinheiro, comprometendo relacionamentos, prejudicando o trabalho ou colocando a saúde em risco.


Promete que vai parar.


Às vezes, consegue permanecer semanas ou meses sem consumir.


Então volta a usar.


A interpretação moral costuma ser imediata: faltou vontade.


Mas o desejo de interromper um comportamento não elimina automaticamente os mecanismos que contribuem para sua repetição.


O consumo pode estar associado à busca de prazer, ao alívio de emoções desagradáveis, a hábitos aprendidos, a estímulos ambientais e a alterações nos processos de motivação e recompensa.


Além disso, compreender racionalmente um problema não significa conseguir modificar imediatamente o próprio comportamento.


Na clínica, não é raro encontrarmos pessoas que sabem explicar perfeitamente as consequências do consumo, mas ainda não conseguem construir alternativas suficientemente consistentes para sustentar uma mudança.


Saber que algo faz mal e conseguir deixar de fazê-lo são processos diferentes.



A droga pode oferecer prazer, mas também pode funcionar como alívio


Existe uma diferença importante entre consumir uma substância para intensificar uma experiência prazerosa e utilizá-la para tentar suportar uma experiência emocional dolorosa.


Alguém pode consumir drogas em uma festa buscando euforia, energia e desinibição.


Outra pessoa pode recorrer à mesma substância para aliviar sentimentos de inadequação, solidão ou angústia.


Essas experiências não são equivalentes, embora possam se misturar.


Na perspectiva psicanalítica, interessa compreender a função singular que determinada substância assume na vida de cada sujeito.


O que ela permite experimentar? O que ajuda a evitar? O que acontece emocionalmente quando não está disponível?


Essas perguntas não substituem a avaliação dos efeitos farmacológicos ou dos riscos do consumo. Elas acrescentam uma dimensão indispensável: a história e a subjetividade de quem consome.


Afinal, duas pessoas podem utilizar a mesma droga e estabelecer relações muito diferentes com ela.


Nem toda compulsão é igual e nem tudo se explica pela dopamina


Atualmente, tornou-se comum explicar comportamentos repetitivos a partir da dopamina.


Embora esse neurotransmissor participe de processos relacionados à motivação, à aprendizagem e à recompensa, a expressão “vício em dopamina” simplifica excessivamente fenômenos complexos.


Dependência química, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno do jogo e transtorno do comportamento sexual compulsivo não são diagnósticos intercambiáveis.


No TOC, por exemplo, as compulsões frequentemente aparecem como tentativas de reduzir a ansiedade associada a obsessões.


Na dependência química, podem existir fissura, alterações relacionadas ao uso da substância, sintomas de abstinência e dificuldades persistentes de controlar o consumo.


No transtorno do comportamento sexual compulsivo, o problema envolve um padrão persistente de dificuldade de controle dos impulsos ou comportamentos sexuais, acompanhado de prejuízo significativo. Não se trata simplesmente de ter muito desejo sexual.


A própria CID-11 reconhece diferenças entre essas condições.


Por isso, tratar toda repetição como vício ou toda busca de prazer como compulsão pode conduzir a interpretações equivocadas.


Nem todo comportamento repetitivo é uma compulsão. Nem toda compulsão é uma dependência. E nem todo prazer intenso representa um transtorno.



Sexo, pornografia e drogas: quando o julgamento moral dificulta o tratamento


Essa discussão se torna ainda mais delicada quando o consumo de substâncias aparece associado à sexualidade.


Pessoas que procuram psicoterapia por dificuldades relacionadas ao uso de pornografia, comportamento sexual compulsivo ou chemsex podem carregar sentimentos intensos de vergonha.


Às vezes, o sofrimento não está relacionado apenas à perda de controle sobre determinado comportamento, mas também ao medo de revelar experiências que imaginam ser condenadas pelo profissional.


No atendimento de pessoas LGBT+, é particularmente importante diferenciar sofrimento clínico de preconceitos sociais relacionados à sexualidade.


Ter múltiplos parceiros, consumir pornografia, viver relações não monogâmicas ou experimentar práticas sexuais consensuais não constitui, por si só, um transtorno psicológico.


O trabalho clínico precisa investigar o contexto, a autonomia, os riscos, os prejuízos e a relação subjetiva com essas experiências.


No chemsex, por exemplo, o uso de substâncias pode se associar à excitação sexual, à desinibição e à construção de vínculos, mas também pode produzir situações de vulnerabilidade e padrões problemáticos de consumo.


A intervenção não pode começar pela condenação da experiência sexual.


Precisa começar pela possibilidade de compreendê-la.


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Não culpabilizar também não significa retirar a responsabilidade


Existe uma distinção que considero fundamental no tratamento das dependências.


Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa.


Culpabilizar é reduzir o sujeito ao comportamento, como se a dependência revelasse uma deficiência moral.


Responsabilizar terapeuticamente é ajudá-lo a reconhecer suas escolhas possíveis, compreender consequências e participar ativamente do processo de mudança.


O paciente não precisa ser humilhado para reconhecer que seu consumo produziu sofrimento.


Também não precisa ser tratado como alguém incapaz de participar das decisões sobre a própria vida.


Na psicoterapia, considero importante construir um espaço em que seja possível falar sobre recaídas, ambivalências e dificuldades sem que cada episódio seja interpretado como uma derrota pessoal.


Isso não significa minimizar riscos ou consequências.


Significa compreender que a mudança dificilmente se sustenta apenas pelo medo, pela vergonha ou pela pressão externa.


O tratamento não deve se limitar à luta contra a vontade de consumir


Uma das questões que considero centrais no trabalho com dependências e comportamentos compulsivos é a construção de outras possibilidades de satisfação.


Muitas vezes, o tratamento fica excessivamente concentrado na pergunta: “Como impedir que a pessoa volte a usar?”


Essa pergunta é importante, mas insuficiente.


Também precisamos perguntar: “O que essa pessoa pode construir em sua vida para que o consumo deixe de ocupar um lugar tão central?”


Isso envolve compreender os fatores que mantêm o comportamento, desenvolver estratégias para lidar com a fissura e ampliar experiências de prazer, pertencimento, intimidade e realização.


A neuroplasticidade — a capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões e padrões de funcionamento — participa dos processos de aprendizagem e mudança. Mas não existe uma substituição simples e automática de um circuito de recompensa por outro.


Na prática clínica, intervenções motivacionais, estratégias comportamentais e o trabalho sobre conflitos emocionais podem contribuir de maneiras complementares.


Dependendo da gravidade, também pode ser necessário acompanhamento psiquiátrico e outros recursos de uma rede multiprofissional.


O objetivo não é simplesmente ensinar alguém a resistir indefinidamente a um desejo.


É ampliar suas condições de escolha e ajudá-lo a construir uma vida que não esteja organizada exclusivamente em torno do consumo.


A recaída não apaga o processo terapêutico


Pessoas em tratamento podem apresentar períodos de melhora e episódios de retorno ao consumo.


Isso não significa que a recaída seja inevitável ou que deva ser banalizada.


Significa que ela precisa ser compreendida clinicamente.


O que aconteceu antes? Quais emoções estavam presentes? Houve exposição a situações associadas ao consumo? Quais estratégias funcionaram e quais foram insuficientes?


Essas perguntas ajudam a transformar um episódio difícil em informação útil para o tratamento.


Em vez de perguntar apenas por que o paciente falhou, podemos investigar o que ainda precisa ser compreendido e trabalhado.


A recuperação não precisa ser pensada como uma trajetória perfeitamente linear.


E a pessoa que enfrenta uma dependência continua sendo muito mais do que seu diagnóstico ou seus momentos de maior dificuldade.


Psicoterapia para dependência química e comportamentos compulsivos


Buscar acompanhamento psicológico não exige chegar ao consultório com todas as respostas ou com a decisão definitiva de nunca mais consumir.


A ambivalência pode fazer parte do próprio processo.


Na minha prática clínica, trabalho a partir da psicanálise, articulando, quando indicado, recursos de abordagens como a terapia cognitivo-comportamental e estratégias de regulação emocional e mudança comportamental.


O objetivo é compreender a função que o consumo ou o comportamento compulsivo assume na vida de cada pessoa, considerando sua história, seus vínculos, sua sexualidade e as possibilidades concretas de transformação.


O atendimento é realizado presencialmente em São Paulo e online, conforme a demanda e as condições de cada caso. Para atendimentos online conheça: psicoterapia online para o tratamento das compulsões


Perguntas frequentes sobre dependência química e compulsões


1. Dependência química é doença ou falta de caráter?

A dependência química é uma condição de saúde reconhecida pelas classificações diagnósticas internacionais. Seu desenvolvimento envolve múltiplos fatores e não pode ser explicado simplesmente por fraqueza moral ou falta de caráter.


2. Quem usa drogas é responsável pela própria dependência?

É importante diferenciar responsabilidade de culpa. A pessoa pode participar ativamente do tratamento e responder pelas consequências de seus comportamentos sem ser moralmente condenada pelo desenvolvimento de uma dependência.


3. Por que uma pessoa dependente continua usando mesmo querendo parar?

Porque o consumo pode estar associado à fissura, à aprendizagem, à regulação emocional, a alterações relacionadas ao uso de substâncias e a estímulos que favorecem a repetição. A vontade de mudar é importante, mas nem sempre suficiente para sustentar a mudança.


4. Toda compulsão é um vício?

Não. Transtorno obsessivo-compulsivo, dependência química, transtorno do jogo e transtorno do comportamento sexual compulsivo apresentam características e classificações distintas. Uma avaliação profissional ajuda a identificar o que está acontecendo.


5. Consumir pornografia significa ter compulsão sexual?

Não. O consumo de pornografia, isoladamente, não caracteriza um transtorno. É necessário avaliar persistência, dificuldade de controle, sofrimento e prejuízos significativos. O sofrimento decorrente exclusivamente de julgamentos morais sobre a sexualidade não é suficiente para caracterizar o transtorno do comportamento sexual compulsivo.


6. É possível tratar a dependência química sem internação?

Sim. Muitas pessoas recebem tratamento ambulatorial, com psicoterapia, acompanhamento médico e outros recursos de cuidado. A necessidade de internação depende de avaliação individual, incluindo riscos clínicos e psiquiátricos, gravidade do quadro e condições de segurança.


7. A psicoterapia pode ajudar em casos de drogas, pornografia e compulsão sexual?

Sim. A psicoterapia pode ajudar a compreender os fatores associados ao comportamento, trabalhar a motivação, desenvolver estratégias de regulação emocional e ampliar possibilidades de mudança. O plano terapêutico deve considerar as particularidades de cada situação.


8. Posso procurar psicoterapia mesmo sem conseguir parar de usar?

Sim. Não é necessário esperar conseguir interromper o consumo para buscar ajuda. O atendimento pode começar pela compreensão da relação com a substância, pela avaliação dos riscos e pela construção de objetivos terapêuticos possíveis.


Dependência química não define quem você é


Talvez uma das consequências mais dolorosas do preconceito seja fazer com que alguém passe a acreditar que seus comportamentos mais difíceis representam toda a sua identidade.


Uma pessoa pode enfrentar uma dependência, reconhecer prejuízos, precisar de ajuda e continuar merecendo respeito.


O tratamento não começa necessariamente quando desaparece a vontade de consumir.


Muitas vezes, começa quando se torna possível falar sobre ela sem medo de ser reduzido a um julgamento.


Referências clínicas utilizadas

A fundamentação foi conferida com materiais do National Institute on Drug Abuse (NIDA) sobre dependência e estigma, e com as diretrizes diagnósticas da CID-11 da OMS


Rodrigo Toledo Potechi

Psicólogo clínico | Pós-graduado em Saúde Mental

Atendimento presencial em São Paulo e psicoterapia online

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