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Psicanálise e pessoas LGBT: é possível uma clínica afirmativa?

Foto do escritor: psirodrigotoledo
psirodrigotoledo
há 11 minutos
8 min de leitura

Psicanálise e clínica afirmativa LGBT podem parecer, à primeira vista, perspectivas difíceis de conciliar.


De um lado, a psicanálise se interessa pelo inconsciente, pelos conflitos, pelas repetições, pelas ambiguidades do desejo e por aquilo que nem sempre está imediatamente claro para quem fala. De outro, uma perspectiva afirmativa parte de um princípio fundamental: orientação sexual e identidade de gênero não são doenças e não devem ser tratadas como algo que precise ser corrigido.


Essa diferença, porém, não precisa produzir uma oposição.


É possível reconhecer a legitimidade das experiências LGBT e, ao mesmo tempo, investigar conflitos, relações, escolhas, fantasias, repetições e formas de sofrimento.


Talvez a pergunta mais interessante não seja se a psicanálise pode “aceitar” pessoas LGBT, mas outra:


É possível sustentar uma escuta psicanalítica profunda sem transformar orientação sexual ou identidade de gênero em problema a ser explicado?


É justamente nesse ponto que psicanálise e clínica afirmativa podem encontrar um terreno comum.


O que significa uma clínica afirmativa LGBT?


A palavra “afirmativa” às vezes produz uma interpretação equivocada.


Uma clínica afirmativa não significa que o terapeuta precise concordar com tudo o que o paciente pensa ou faz. Também não significa evitar questionamentos, conflitos ou temas difíceis.


O que se afirma é algo mais fundamental: a legitimidade da orientação sexual e da identidade da pessoa.


Ser gay, lésbica, bissexual, trans ou pertencer a outra expressão da diversidade sexual e de gênero não constitui, por si só, um problema psicológico a ser corrigido.


Isso não significa que não possa existir sofrimento relacionado à sexualidade ou à identidade.


Uma pessoa pode viver medo de rejeição, conflitos familiares, vergonha, dificuldades para construir relações, experiências de preconceito, violência, isolamento ou sentimentos contraditórios em relação a si mesma.


Tudo isso pode aparecer em psicoterapia.


A diferença está em não confundir o sofrimento que pode existir em torno da experiência LGBT com a ideia de que ser LGBT seria a causa patológica desse sofrimento.


Na psicoterapia para pessoas LGBT, essa distinção é importante porque questões relacionadas à sexualidade frequentemente aparecem misturadas à história familiar, aos relacionamentos, à autoestima, ao trabalho, ao pertencimento e às formas particulares de cada pessoa estabelecer vínculos.


Onde entra a psicanálise?


A psicanálise não trabalha apenas com aquilo que aconteceu na vida de alguém, mas também com a maneira singular como cada pessoa viveu, interpretou e incorporou essas experiências.


Duas pessoas podem atravessar situações aparentemente semelhantes e produzir sentidos completamente diferentes a partir delas.


Por isso, uma escuta psicanalítica procura compreender conflitos que se repetem, formas recorrentes de se relacionar, escolhas amorosas, medos, defesas, expectativas e aspectos da experiência que muitas vezes permanecem fora daquilo que a própria pessoa consegue perceber de imediato.


Isso também vale para pessoas LGBT.


Conhecer a orientação sexual de alguém não explica automaticamente como essa pessoa ama, como reage à rejeição, como escolhe parceiros, como vive a intimidade, como lida com abandono ou de que maneira procura reconhecimento.


Existe uma experiência coletiva relacionada à vida LGBT, mas existe também uma história singular.


A psicoterapia psicanalítica pode oferecer justamente um espaço em que essas diferentes dimensões sejam investigadas sem reduzir a pessoa a uma identidade, diagnóstico ou categoria.


Quando a psicanálise pode se tornar problemática para pessoas LGBT?


A dificuldade aparece quando uma teoria deixa de funcionar como instrumento de investigação e passa a oferecer respostas antes mesmo que a pessoa possa falar sobre sua experiência.


Ao longo da história, algumas formulações psicológicas e psicanalíticas tentaram explicar orientações sexuais diferentes da heterossexualidade a partir de ideias como falhas no desenvolvimento, conflitos familiares específicos ou determinadas relações parentais.


Quando o terapeuta parte da suposição de que existe necessariamente algo a ser descoberto que explique por que alguém é LGBT, a investigação já começa limitada.


A resposta foi imaginada antes da pergunta.


Uma postura diferente seria perguntar:


Como essa pessoa vive sua sexualidade?


Que lugar essa experiência ocupa em sua história?


Como foram seus vínculos familiares?


Como ela constrói intimidade?


O que acontece quando alguém se aproxima?


Como aparecem desejo, vergonha, medo, reconhecimento ou pertencimento em suas relações?


Essas perguntas não tentam explicar por que uma pessoa é LGBT.


Elas procuram compreender como aquela pessoa particular vive sua própria experiência.


Uma clínica afirmativa não precisa abandonar o conflito


Existe também um risco no movimento oposto.


Na tentativa de não patologizar experiências LGBT, o terapeuta pode começar a evitar perguntas difíceis ou considerar que qualquer questionamento relacionado à sexualidade seria inadequado.


Mas pessoas LGBT, como qualquer pessoa, podem permanecer em relações destrutivas, evitar intimidade, repetir escolhas que produzem sofrimento, utilizar sexo como forma de regulação emocional, ter dificuldades com limites ou buscar reconhecimento de maneiras que acabam gerando consequências dolorosas.


Uma clínica afirmativa não precisa permanecer silenciosa diante disso.


A orientação sexual ou a identidade da pessoa não está em julgamento.


Seus conflitos, escolhas, relações e formas de sofrimento continuam podendo ser investigados.O terapeuta pode acolher uma experiência e, em outro momento, questionar uma escolha. Pode validar um sofrimento e também interpretar uma repetição. Pode reconhecer uma experiência de preconceito sem transformar tudo o que acontece na vida daquela pessoa em consequência desse preconceito.


Afirmação e investigação clínica não precisam ser opostas.


Psicanálise e terapia afirmativa LGBT podem dialogar?


Podem, desde que nenhuma das duas perspectivas seja reduzida a uma caricatura.


A perspectiva afirmativa lembra que nenhum tratamento deveria partir da ideia de que orientação sexual ou identidade de gênero precisa ser corrigida. A psicanálise, por sua vez, lembra que reconhecer uma identidade não significa acreditar que sabemos tudo sobre uma pessoa apenas porque conhecemos essa identidade.


É nesse espaço que o diálogo pode se tornar interessante.


Alguém pode dizer “sou gay”, “sou lésbica”, “sou bissexual” ou “sou trans”, e essa forma de se reconhecer precisa ser respeitada.


Mas muitas perguntas continuam abertas.


Como essa pessoa escolhe parceiros?


O que espera de uma relação?


Como reage quando se sente rejeitada?


Como vive o próprio corpo?


Como lida com desejo e intimidade?


Que experiências anteriores reaparecem nas relações atuais?


O que acontece quando alguém se aproxima demais?


Nenhuma dessas perguntas precisa colocar sua identidade sob suspeita.


Ao contrário, elas permitem que a pessoa seja escutada para além dela.


Nem tudo é social. Nem tudo é intrapsíquico.


Uma clínica voltada para pessoas LGBT também precisa sustentar essa complexidade. Experiências de preconceito, rejeição familiar, necessidade de esconder relacionamentos, medo de exposição ou dificuldade de demonstrar afeto em determinados ambientes podem produzir efeitos importantes ao longo da vida.


Algumas pessoas aprendem muito cedo a observar cuidadosamente o ambiente antes de mostrar quem são. Outras passam anos tentando corresponder às expectativas familiares ou sociais antes de conseguirem construir uma vida mais próxima de seus próprios desejos. Essas experiências importam. Mas elas não explicam tudo.


Da mesma maneira, não seria suficiente interpretar todo sofrimento apenas como resultado de conflitos internos, ignorando o contexto social em que alguém vive.


Nem tudo é social.

Nem tudo é intrapsíquico.


Muitas vezes, a experiência subjetiva aparece justamente no encontro entre essas duas dimensões.


Por que algumas pessoas procuram um psicanalista LGBT ou pesquisam por “psicanalista gay”?


Algumas pessoas procuram especificamente expressões como “psicanalista LGBT”, “psicanalista gay” ou “psicólogo LGBT” porque desejam diminuir a necessidade de explicar determinados contextos antes de conseguir falar sobre aquilo que realmente as levou à terapia.


Isso não significa que somente profissionais LGBT possam atender pessoas LGBT.


A orientação sexual do terapeuta, por si só, não determina competência clínica.


Mas é compreensível que algumas pessoas procurem um profissional familiarizado com questões relacionadas à diversidade sexual, preconceito, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo ou determinadas experiências presentes na vida LGBT.


Para alguns pacientes, essa familiaridade pode facilitar a construção inicial de confiança.


Para outros, isso terá pouca importância.


A escolha de um terapeuta também envolve aquilo que permite que cada pessoa se sinta em condições de começar a falar.


Uma clínica afirmativa também precisa permitir dúvidas


Talvez esse seja um dos pontos mais delicados.


A palavra “afirmativa” não deveria significar que determinadas perguntas se tornem proibidas. Uma pessoa pode ter dúvidas sobre sua sexualidade. Pode viver ambivalências. Pode questionar como deseja construir seus relacionamentos. Pode não se reconhecer completamente nas categorias disponíveis. Pode compreender sua própria experiência de maneiras diferentes ao longo da vida.


A função do terapeuta não é antecipar qual deveria ser a resposta.


Uma clínica afirmativa pode oferecer segurança para que essas questões existam sem transformar a dúvida em sinal de doença e sem conduzir a pessoa para uma identidade previamente esperada.


Talvez exista aí uma contribuição particularmente interessante da psicanálise:


Afirmar o direito de alguém ser quem é não significa decidir antecipadamente quem essa pessoa precisa ser.


Identidade não encerra a história de uma pessoa


Identidades podem ser extremamente importantes.


Elas podem oferecer pertencimento, linguagem, reconhecimento e possibilidade de nomear experiências que durante muito tempo permaneceram confusas ou solitárias.


Mas nenhuma identidade consegue explicar completamente uma pessoa.


Ser LGBT pode fazer parte de uma história sem precisar se transformar na explicação de todos os seus conflitos. Essa diferença é especialmente importante em psicoterapia.


Uma pessoa pode procurar tratamento inicialmente por questões relacionadas à sexualidade e, ao longo do processo, perceber que deseja falar sobre trabalho, família, envelhecimento, relações amorosas, solidão, compulsões, ansiedade, depressão ou outras dimensões da própria vida.


A clínica precisa conseguir acompanhar esse movimento.


Psicoterapia LGBT presencial e online


Para algumas pessoas, encontrar um espaço onde seja possível falar sobre sexualidade ou identidade sem receio de julgamento já modifica a experiência de iniciar uma psicoterapia. Mas o tratamento não precisa permanecer restrito a essas questões.


O processo acompanha aquilo que aparece na experiência da pessoa e os conflitos que fazem sentido em sua história.


Para quem está em São Paulo, é possível conhecer mais sobre meu trabalho com psicoterapia para pessoas LGBT em São Paulo.


Para quem está em outras cidades ou prefere atendimento remoto, também há informações sobre psicoterapia LGBT online.


Em ambos os formatos, o ponto de partida não é explicar a identidade da pessoa, mas compreender aquilo que a levou a procurar ajuda.


Perguntas frequentes sobre psicanálise e clínica afirmativa LGBT


O que é terapia afirmativa LGBT?

Terapia afirmativa LGBT é uma forma de conduzir a psicoterapia partindo do reconhecimento de que diferentes orientações sexuais e identidades de gênero fazem parte da diversidade humana. Isso não significa concordar com todas as escolhas do paciente, mas não transformar sua orientação sexual ou identidade em algo que precise ser corrigido.


Um psicanalista pode trabalhar de forma afirmativa?

Sim. Não existe incompatibilidade necessária entre uma escuta psicanalítica e uma postura não patologizante diante da diversidade sexual e de gênero. Conflitos, desejos, relações e repetições podem ser investigados sem partir da ideia de que ser LGBT constitui um problema psicológico.


Psicanálise e terapia afirmativa são a mesma coisa?

Não. Elas partem de tradições e referenciais diferentes. A clínica afirmativa enfatiza especialmente uma postura não patologizante diante da diversidade sexual e de gênero. A psicanálise se ocupa da investigação do inconsciente, dos conflitos, das repetições e da singularidade de cada sujeito. Essas perspectivas, entretanto, podem dialogar na prática clínica.


Terapia afirmativa significa que o terapeuta nunca questiona o paciente?

Não. Acolhimento e questionamento não são incompatíveis. Um terapeuta pode reconhecer e validar determinada experiência e, ao mesmo tempo, questionar comportamentos, relações ou interpretações que estejam produzindo sofrimento.


Uma pessoa LGBT precisa procurar necessariamente um psicólogo LGBT?

Não. A orientação sexual ou identidade do terapeuta não determina sua competência profissional. Algumas pessoas, porém, sentem maior facilidade em iniciar o processo com alguém familiarizado com determinados contextos presentes na vida LGBT.


Qual é a diferença entre psicoterapia LGBT e terapia afirmativa LGBT?

Psicoterapia LGBT costuma descrever uma prática ou serviço voltado também às demandas de pessoas LGBT. Clínica ou terapia afirmativa diz respeito especialmente à postura do profissional diante da diversidade sexual e de gênero. Por isso, atender pessoas LGBT não significa necessariamente trabalhar a partir de uma perspectiva afirmativa.


A psicoterapia precisa falar o tempo todo sobre sexualidade?

Não. Sexualidade e identidade podem ser centrais em determinados momentos e pouco relevantes em outros. O processo acompanha aquilo que aparece na experiência da pessoa, sem uma agenda previamente definida pelo terapeuta.


É possível fazer uma psicoterapia psicanalítica LGBT online?

Sim. O trabalho psicoterapêutico de orientação psicanalítica também pode acontecer por atendimento remoto. Para quem não está em São Paulo ou prefere esse formato, há mais informações sobre psicoterapia LGBT online.


Entre identidade e singularidade


Talvez a intersecção mais interessante entre psicanálise e clínica afirmativa esteja na possibilidade de sustentar duas ideias ao mesmo tempo. A orientação sexual e a identidade de uma pessoa não precisam ser explicadas, corrigidas ou colocadas sob suspeita. Ao mesmo tempo, nenhuma identidade, por mais importante que seja, consegue dizer tudo sobre aquilo que alguém é.


Uma clínica afirmativa protege a pessoa de uma escuta patologizante. Uma escuta psicanalítica permite investigar aquilo que ainda não está inteiramente compreendido em sua história.


Quando essas duas posições conseguem coexistir, a psicoterapia pode se tornar um espaço em que identidade não seja nem doença, nem limite para aquilo que ainda pode ser descoberto sobre si.


Para informações sobre atendimento ou disponibilidade de horários, você pode entrar em contato pelo WhatsApp.


Psicólogo Rodrigo Toledo Potechi

CRP: 06/001760-IS

   

 
 
 

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